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Real Oncologia

Uso e duração da terapia hormonal (ADT) associada a radioterapia pós-operatória para câncer de próstata recorrente: uma metanálise de dados individuais de pacientes (POSEIDON)

*Comentado pelo Dr. Lucas Campos

 O artigo publicado no The Lancet em fevereiro de 2026 apresenta uma meta-análise baseada em dados individuais de pacientes que investigou o papel da terapia hormonal associada à radioterapia pós-operatória em pacientes com câncer de próstata recorrente após prostatectomia radical. O estudo, denominado POSEIDON, teve como objetivo principal determinar se a adição de terapia de privação androgênica (ADT) à radioterapia pós-operatória (PORT) é capaz de melhorar a sobrevida global, além de avaliar se a duração da terapia hormonal influencia os desfechos clínicos. 

   A radioterapia pós-operatória representa uma estratégia amplamente utilizada no manejo de pacientes com recidiva bioquímica após prostatectomia radical, podendo ser administrada como radioterapia adjuvante ou de resgate. Embora o benefício da combinação entre radioterapia e terapia hormonal esteja bem estabelecido no tratamento definitivo do câncer de próstata localizado, permanece incerta a magnitude desse benefício no cenário pós-cirúrgico. Dessa forma, os autores conduziram uma meta-análise de dados individuais de ensaios clínicos randomizados para esclarecer se a adição de terapia hormonal à PORT impacta a sobrevida global e outros desfechos relevantes. 

   Para a condução do estudo, foi realizada uma revisão sistemática da literatura utilizando bases de dados como MEDLINE, Embase, Web of Science, Scopus e registros de ensaios clínicos, além de anais de grandes congressos em oncologia e urologia. A busca incluiu estudos publicados entre 1966 e 2025 que avaliavam pacientes com câncer de próstata submetidos à radioterapia pós-operatória com ou sem terapia hormonal. Apenas ensaios clínicos randomizados de fase III com dados disponíveis de sobrevida e metástases foram incluídos na análise. Ao final, seis ensaios clínicos preencheram os critérios de elegibilidade e tiveram seus dados individuais incorporados à análise. 

   A meta-análise incluiu milhares de pacientes provenientes desses estudos, permitindo uma avaliação detalhada de subgrupos clínicos e características tumorais. Entre os parâmetros avaliados estavam níveis de PSA pré-radioterapia, escore de Gleason, estágio tumoral, presença de invasão extracapsular, invasão de vesículas seminais e status de margens cirúrgicas. A análise dessas variáveis permitiu examinar possíveis interações entre características clínicas e o benefício da terapia hormonal associada à radioterapia. 

   Os resultados demonstraram que a adição de terapia hormonal à radioterapia pós-operatória promove melhora em alguns desfechos oncológicos intermediários, como controle bioquímico e risco de metástases à distância. No entanto, o benefício em sobrevida global mostrou-se limitado e dependente de fatores clínicos específicos. Em particular, o nível de PSA antes do início da radioterapia emergiu como um importante modificador do efeito do tratamento. Pacientes tratados em níveis mais elevados de PSA parecem obter maior benefício da associação com terapia hormonal, enquanto aqueles tratados precocemente, com PSA muito baixo, podem apresentar benefício mais modesto.

   Outro ponto relevante explorado na análise foi a duração da terapia hormonal. Os dados sugerem que regimes mais prolongados de ADT podem oferecer vantagens adicionais em determinados subgrupos de maior risco, embora esse benefício deva ser balanceado com o potencial aumento de toxicidade e impacto na qualidade de vida. A análise detalhada permitiu também avaliar diferenças entre esquemas de curta duração (tipicamente 4 a 6 meses) e terapias mais prolongadas (até 24 meses), refletindo a heterogeneidade dos protocolos incluídos nos ensaios clínicos analisados.

   A grande força metodológica do estudo reside no uso de dados individuais de pacientes provenientes de múltiplos ensaios clínicos randomizados, o que permite maior precisão nas estimativas de efeito e avaliação robusta de subgrupos clínicos. Essa abordagem também possibilita ajustar as análises para variáveis prognósticas relevantes e investigar interações que não seriam identificáveis em meta-análises baseadas apenas em dados agregados.

   Em resumo, os resultados do estudo sugerem que a adição de terapia hormonal à radioterapia pós-operatória pode melhorar alguns desfechos oncológicos, particularmente em pacientes com maior risco de progressão, mas o impacto em sobrevida global parece ser limitado e dependente do contexto clínico, especialmente do nível de PSA no momento da radioterapia. Esses achados reforçam a necessidade de individualização terapêutica no manejo da recidiva após prostatectomia radical, considerando características tumorais, carga de doença e perfil de risco do paciente.

   Os autores concluem que a decisão de associar terapia hormonal à radioterapia pós-operatória deve levar em conta fatores prognósticos específicos, com particular atenção ao PSA pré-tratamento e ao risco de doença metastática. Além disso, o estudo destaca a importância de estratégias terapêuticas personalizadas e da realização de novos ensaios clínicos para definir com maior precisão quais pacientes realmente se beneficiam da intensificação hormonal nesse cenário.

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