*Comentado por Dra. Samara Aquino
O número estimado de novos casos de câncer de ovário no Brasil para cada o ano de 2026 é de 8.020 casos, com um risco estimado de 7,33 casos novos a cada 100 mil mulheres. Sendo o 8º câncer mais comum entre as mulheres. Acredita-se que o carcinoma seroso de alto grau do ovário tenha origem primária nas tubas uterinas, por este motivo prevenção primária deste que é um dos principais tipos de tumores de ovário (correspondendo a 70% dos carcinomas) pode ser realizada através da salpingectomia bilateral oportunística (opportunistic bilateral salpingectomy – OBS), realizada no momento de cirurgias pélvicas benignas. Dados robustos têm mostrado que OBS é seguro, não antecipa o início da menopausa e é custo-efetiva.
Este estudo avaliou a ocorrência de carcinoma ovariano após OBS, trazendo dados populacionais e uma análise internacional baseada em patologia que reforçam o racional biológico e clínico dessa abordagem preventiva. O estudo foi conduzido em duas etapas complementares. A primeira consistiu em uma coorte populacional retrospectiva baseada em registros da província de British Columbia, no Canadá. Foram incluídas mulheres submetidas entre 2008 e 2020 a procedimentos ginecológicos nos quais a remoção das tubas poderia ser realizada, comparando-se aquelas que receberam salpingectomia bilateral oportunística com pacientes submetidas a procedimentos comparadores, como histerectomia isolada ou laqueadura tubária. O objetivo principal dessa análise foi estimar o impacto da OBS no risco de desenvolvimento de carcinoma ovariano seroso, utilizando modelos de regressão de Cox. Como estratégia metodológica para explorar possíveis vieses de seleção, os autores também avaliaram a incidência de câncer de mama como desfecho de controle negativo.
Ao todo, foram analisadas 85.823 pacientes. Destas, 40.527 foram submetidas à salpingectomia bilateral oportunística, com tempo mediano de seguimento de aproximadamente 4,7 anos, enquanto 45.296 compuseram o grupo comparador, com seguimento mediano de cerca de 8,5 anos. Observou-se que o grupo comparador apresentava idade média discretamente maior (42 x 40 anos) e menor proporção de uso prévio de contraceptivos orais (50 x 60%). Apesar dessas diferenças basais, a análise demonstrou uma redução substancial no risco de carcinoma ovariano seroso entre as pacientes submetidas à OBS, com hazard ratio de 0,22 (IC95% 0,05–0,95), sugerindo uma redução relativa de risco próxima de 78%. Por outro lado, não houve diferença significativa na incidência de câncer de mama entre os grupos (HR 0,99), sustentando a hipótese de que a redução observada para câncer ovariano não seja explicada apenas por fatores de confusão não mensurados.
A segunda etapa do estudo consistiu em uma série internacional de casos baseada em dados de patologia, destinada a caracterizar os tumores ovarianos diagnosticados em pacientes previamente submetidas à salpingectomia. Foram identificados 26 casos de carcinoma ovariano em indivíduos sem tubas uterinas. Um achado relevante foi a mudança no padrão histológico dessas neoplasias: apenas 23,1% dos tumores eram carcinomas serosos de alto grau, proporção significativamente menor do que a observada em coortes históricas com tubas intactas, nas quais aproximadamente 68% dos tumores correspondem a esse subtipo. Essa mudança na distribuição histológica reforça a hipótese de que grande parte dos carcinomas serosos de alto grau se origina nas tubas uterinas, particularmente na região da fímbria, e que a remoção profilática das tubas pode modificar o perfil biológico dos tumores que eventualmente ainda venham a surgir.
Esses achados fornecem evidência adicional de mundo real sustentando a efetividade da salpingectomia bilateral oportunística como estratégia de prevenção do câncer ovariano seroso. Contudo devemos levar em consideração que o número absoluto de eventos oncológicos foi relativamente pequeno e o tempo de seguimento limitado, especialmente considerando que muitos procedimentos foram realizados em mulheres abaixo da faixa etária de maior incidência de carcinoma serosos.
Do ponto de vista da prática clínica, esses dados sugerem que é possível considerar a salpingectomia bilateral durante cirurgias pélvicas benignas, como histerectomias ou procedimentos para esterilização definitiva, quando tecnicamente viável e após discussão adequada com a paciente. A estratégia representa uma oportunidade de prevenção primária de um tumor frequentemente diagnosticado em estágios avançados e com impacto significativo em mortalidade.
Referência
Sowamber R, Mei AJ, Kaur P, McLeod J, McKay E, Lukey A, et al. Serous ovarian cancer following opportunistic bilateral salpingectomy. JAMA Network Open. 2026. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.57267.
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