*Comentado por Dra. Samara Aquino
O estudo ROSELLA avaliou a combinação de relacorilant com nab-paclitaxel em pacientes com câncer epitelial de ovário, tuba ou peritônio resistente à platina, um cenário historicamente associado a prognóstico reservado e opções terapêuticas limitadas. O racional biológico da estratégia é particularmente relevante: a ativação do receptor de glicocorticoide no microambiente tumoral está associada à indução de vias antiapoptóticas e redução da sensibilidade à quimioterapia, além de correlacionar-se com pior prognóstico. O relacorilant, um antagonista seletivo desse receptor, foi desenvolvido com o objetivo de reverter esse fenótipo de resistência, potencializando o efeito citotóxico dos taxanos. A escolha do nab-paclitaxel como parceiro também é estratégica, uma vez que dispensa o uso de corticoides como pré-medicação, evitando interferência farmacodinâmica com o mecanismo de ação do relacorilant.
Trata-se de um estudo fase III, randomizado, aberto, conduzido em 117 centros de 14 países, incluindo pacientes com doença resistente à platina, previamente tratadas com uma a três linhas sistêmicas e doença mensurável. Todas as pacientes tiveram exposição prévia a bevacizumabe, cerca de 61% com exposição a iPARP e 3% previamente expostas a mirvetuximabe. Cerca de 15% tinham mutação germinativa de BRCA, sendo relacolirant a primeira linha de tratamento no cenário resistente a platina em 60% da população do estudo. As pacientes foram randomizadas para receber relacorilant associado ao nab-paclitaxel semanal ou nab-paclitaxel isolado. Os desfechos primários foram sobrevida livre de progressão (SLP) avaliada por revisão central independente e sobrevida global (SG), analisados por intenção de tratar. O desenho utilizou nab-paclitaxel como comparador ativo, o que aumenta a robustez da comparação, já que esse agente apresenta atividade relevante nesse cenário.
Os resultados demonstraram benefício estatisticamente significativo em SLP, com mediana de 6,54 meses no braço combinação versus 5,52 meses no controle, correspondendo a uma redução de 30% no risco de progressão ou morte. Análise final de SG apresentada no SGO 2026 (Society of Gynecologic Oncology) mostrou benefício estatisticamente significativo com redução aproximada de 35% no risco de morte e diferença absoluta em torno de 4 meses. Esses achados foram acompanhados por aumento numérico na taxa de resposta e melhora significativa na taxa de benefício clínico em 24 semanas. O perfil de toxicidade mostrou maior incidência de eventos grau ≥3 no braço experimental, especialmente neutropenia, anemia e fadiga, porém esse aumento deve ser interpretado à luz de maior tempo de exposição ao tratamento; quando ajustado por exposição, não houve surgimento de novos sinais de segurança, e o perfil global foi considerado manejável.
Quando comparado a outras opções disponíveis, o regime com relacorilant apresenta características distintas. Em relação ao pembrolizumabe em combinação com paclitaxel com ou sem bevacizumabe, os dados do KEYNOTE-B96 mostram benefício em SLP e SG restrito a pacientes com expressão de PD-L1, o que limita sua aplicabilidade universal. O mirvetuximabe soravtansina, por sua vez, representa uma opção altamente eficaz em tumores com alta expressão de receptor de folato alfa (FRα), com benefício comprovado inclusive em sobrevida global, porém sua utilização também depende de biomarcador específico e não se aplica a toda a população. Já o trastuzumabe-deruxtecan apresenta atividade em tumores HER2-expressing, incluindo ovário, mas com evidência ainda baseada predominantemente em estudos fase II e coortes pan-tumor, sem validação definitiva em fase III nesse cenário específico. Nesse contexto, o principal diferencial do relacorilant é oferecer benefício em sobrevida global em uma população não selecionada, preenchendo uma lacuna terapêutica importante.
Apesar dos resultados positivos, o estudo apresenta limitações relevantes que devem ser consideradas na prática clínica. O desenho aberto constitui uma potencial fonte de viés, embora parcialmente mitigado pelo uso de revisão central independente para o desfecho de SLP. Outro ponto crítico é a escolha do comparador: embora o nab-paclitaxel seja ativo, ele não reflete totalmente a heterogeneidade do tratamento padrão atual, que frequentemente inclui quimioterapia à escolha do investigador ou estratégias dirigidas por biomarcadores, o que pode limitar a generalização direta dos resultados. Além disso, a população incluída foi relativamente selecionada, com ECOG 0–1 e até três linhas prévias, o que pode não representar pacientes mais fragilizados ou mais intensamente pré-tratados na prática real.
Em síntese, o ROSELLA demonstra que a modulação da via do receptor de glicocorticoide é uma estratégia válida para superar resistência à quimioterapia, com impacto consistente em sobrevida global em câncer de ovário resistente à platina. A combinação de relacorilant com nab-paclitaxel emerge como uma opção particularmente atraente para pacientes sem biomarcadores acionáveis, com eficácia clinicamente relevante e toxicidade manejável, embora a definição do seu posicionamento ideal na sequência terapêutica ainda dependa de comparações indiretas e maior maturidade dos dados. No momento estamos aguardando sua aprovação pelas entidades regulatórias no Brasil para início do seu uso na prática clínica.
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