*Comentado por Dra. Paloma Porto
O câncer de bexiga é a 10ª causa de câncer mais comum no mundo e representa 2% de todas as causas de morte por câncer. O carcinoma urotelial representa 90% de todos os casos de câncer de bexiga e aproximadamente ¾ dos pacientes se apresentam ao diagnostico com câncer de bexiga não musculo invasivo ou seja, confinado ao urotélio (Ta ou carcinoma in situ) ou lamina própria (T1).
O tratamento padrão para câncer de bexiga não musculo invasivo de alto risco (HR NMIBC) é a ressecção transuretral do tumor da bexiga (TURBT) seguido de imunoterapia intravesical com BCG. No entanto, apesar das altas taxas de respostas iniciais, até 50% dos pacientes têm recorrência ou tornam-se não responsivos ao BCG.
Os pacientes cujo câncer não responde ou que recidivam em 12 meses têm prognóstico ruim e requerem cistectomia radical (RC). Neste sentido, o estudo KEYNOTE-057, fase 2, multicoorte, de braço único foi desenhado para investigar a segurança e a eficácia da monoterapia com pembrolizumabe para pacientes com HR NMIBC não responsivo ao BCG (de acordo com o FDA) que eram inelegíveis ou se recusaram a se submeter a RC.
Os resultados da coorte A (carcinoma in situ [CIS] ± tumores papilares) mostraram uma taxa de resposta clínica completa de 41% em 3 meses e levaram à aprovação da monoterapia com pembrolizumabe para esses pacientes nos Estados Unidos.
Os dados de acompanhamento apresentados no ASCO Genitourinary Cancers Symposium 2021 revelaram que 33,3% dos que apresentaram resposta completa mantiveram sua resposta por ≥ 18 meses e 23,1% mantiveram sua resposta por ≥ 24 meses.
Durante a ASCO GU Cancers Symposium deste ano de 2023, foram apresentados os resultados da coorte B, que incluiu 132 indivíduos com doença papilar de alto risco NMIBC sem CIS. Dos pacientes incluídos no estudo, 57% apresentavam doença Ta de alto grau e 43% apresentavam doença T1. A maioria dos pacientes teve NMIBC recorrente (60%), 26% apresentando doença persistente e 14% progressiva.Os pacientes receberam pembrolizumabe na dose de 200mg a cada 3 semanas por uma média de 9,5 ciclos. Nesta coorte, a idade média foi de 72 anos (37 a 87 anos), 104 (78,8%) eram do sexo masculino e antes da inclusão no estudo, os pacientes receberam uma média de 10 instilações prévias de BCG
Após as primeiras 12 semanas do estudo, se os pacientes não tivessem uma resposta completa, eles descontinuavam o tratamento, caso contrário, eles continuaram com pembrolizumabe por até 35 ciclos totais (apróx. 2 anos).
Após doze meses, 43,5% dos pacientes permaneceram livres de NMIBC de alto risco e 41,7% permaneceram livres de qualquer doença, incluindo Ta NMIBC de baixo grau. Além disso, 88,2% não tiveram progressão da doença ou óbito e 96,2% permaneceram vivos.
Durante um acompanhamento médio de 45,4 meses (14,9 a 77,1 meses), 105 pacientes descontinuaram a terapia, dos quais a maioria (71 pacientes) apresentou progressão da doença, enquanto 22 pacientes completaram a terapia e 5 estavam recebendo o tratamento.
Nas análises históricas de 24 e 36 meses, a sobrevida livre de doença foi de 34,9% (IC 95% 26-43%).
O perfil de toxicidade da monoterapia com pembrolizumabe foi considerado seguro. Os pacientes receberam tratamento por uma média de 6,3 meses e eventos adversos relacionados ao tratamento ocorreram em 97 pacientes (73,5%). No entanto, a maioria dos eventos foi de grau 1/2, sendo os principais prurido (20,5%), hipotireoidismo (13,6%), fadiga (13,6%) e hipertireoidismo (8,3%). Evento adverso grau 3/4 ocorreu em 19 pacientes (14,4%) e 14 (10,6%) descontinuaram devido a eventos adversos relacionados ao tratamento. Não ocorreram mortes por eventos adversos e os pacientes não apresentaram deterioração de qualidade de vida durante o tratamento.
Após a interrupção do pembrolizumabe, trinta e um pacientes (23,5%) foram submetidos a CR.
O autor concluiu que a monoterapia com pembrolizumabe mostrou atividade antitumoral notável em pacientes com NMIBC de alto risco papilar não responsivo ao BCG após quase quatro anos de acompanhamento. A toxicidade foi administrável e consistente com a da coorte A. Como resultado, sugere-se que pacientes com NMIBC de alto risco papilar não CIS que não respondem ao BCG ou que recusam ou são inelegíveis para se submeter a cistectomia radical também podem se beneficiar da monoterapia com pembrolizumabe.
Referência:
Andrea Necchi et al., Pembrolizumab (pembro) monotherapy for patients (pts) with high-risk non–muscle-invasive bladder cancer (HR NMIBC) unresponsive to bacillus Calmette–Guérin (BCG): Results from cohort B of the phase 2 KEYNOTE-057 trial. J Clin Oncol 41, 2023 (suppl 6; abstr LBA442). 2023 ASCO GU Cancers Symposium.
*Nossos médicos desenvolvem comentários sobre artigos relacionados à oncologia.