*Comentado por Dr. Lucas Campos
O PACE-B é um ensaio clínico internacional de fase III que investigou a eficácia e segurança da radioterapia corporal estereotáxica (SBRT) em comparação com a radioterapia convencionalmente fracionada (RT) em pacientes com câncer de próstata localizado de risco intermediário. O estudo, conduzido em 38 centros no Reino Unido, Canadá e Irlanda, foi projetado para avaliar se a SBRT, administrada em um menor número de frações, poderia oferecer resultados não inferiores em termos de controle da doença, com potencial redução de toxicidades e maior conveniência para os pacientes.
O PACE-B envolveu 874 homens com câncer de próstata de risco baixo a intermediário (definido por um escore de Gleason ≤3+4 e PSA ≤ 20 ng/mL). Esses pacientes foram randomizados para receber um dos dois regimes de tratamento: SBRT: 443 pacientes foram tratados com 5 frações de 7,25 Gy (dose total de 36,25 Gy) em um período de 1 a 2 semanas. RT convencional: 441 pacientes foram tratados com 39 frações de 2 Gy (dose total de 78 Gy) em um período de 7,5 semanas ou 20 frações de 3,1 Gy (dose total de 62 Gy) ao longo de 4 semanas. Nenhum dos pacientes recebeu terapia de privação androgênica (ADT).
O principal desfecho foi a sobrevida livre de falha bioquímica ou clínica, definida por aumento nos níveis de PSA, metástase à distância ou morte por câncer de próstata. Os desfechos secundários incluíram efeitos adversos relacionados ao tratamento, necessidade de ADT e sobrevida global (OS).
Após um seguimento mediano de 73,1 meses, os resultados confirmaram que a SBRT não foi inferior à radioterapia convencional. A taxa de falha bioquímica foi de 95,7% no grupo de SBRT e 94,6% no grupo de RT convencional, demonstrando que ambas as abordagens são altamente eficazes para controle da doença em 5 anos (p para não inferioridade = 0,007). Isso destaca que, com menos frações de radioterapia, a SBRT proporciona uma eficácia similar à RT convencional, um dado que pode impactar significativamente o manejo do câncer de próstata.
Em termos de segurança, o perfil de toxicidade foi comparável entre os dois grupos, com algumas diferenças importantes. Pacientes tratados com SBRT apresentaram uma maior taxa de toxicidade geniturinária de grau 2 ou superior em 5 anos (5,5% vs 3,2%, p = 0,14), embora essa diferença não tenha sido estatisticamente significativa. Já as toxicidades gastrointestinais graves foram raras em ambos os grupos, com apenas 1 paciente em cada braço apresentando efeitos adversos de grau 2 ou superior. No entanto, um acompanhamento mais detalhado revelou que os pacientes no braço SBRT experimentaram maior incidência de toxicidade geniturinária precoce (2 anos após o tratamento), especialmente relacionadas a eventos como disfunções urinárias. Essa maior toxicidade pode estar relacionada à ausência de contornos detalhados da uretra no planejamento da radioterapia, o que pode ter levado a doses mais altas de radiação em certas regiões sensíveis.
Os resultados do PACE-B sugerem que a SBRT é uma opção de tratamento viável e altamente eficaz para o câncer de próstata localizado de risco intermediário, com taxas de controle da doença comparáveis à RT convencional, mas com o benefício de reduzir o número de sessões de tratamento de 7,5 semanas para apenas 1 a 2 semanas. Isso tem importantes implicações práticas, tanto para os pacientes quanto para os sistemas de saúde, oferecendo um regime de tratamento menos invasivo e mais conveniente. Embora a SBRT tenha mostrado uma leve elevação nas toxicidades urinárias, sua rápida conclusão e alta precisão, graças aos avanços na tecnologia de imagem e de entrega de radiação, tornam essa abordagem promissora para o manejo do câncer de próstata localizado.
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