Comentado por Dra. Paloma Porto*
O câncer de mama receptor hormonal positivo (HR+) e Her2 negativo corresponde a aproximadamente 70% dos subtipos ao diagnóstico. O tratamento desses casos de câncer de mama em estágios avançado ou metastático é baseado em terapia endócrina combinada com inibidores dependentes de ciclina (CDK4/6), seguido por quimioterapia na progressão. O tratamento quimioterápico em linhas subsequentes é acompanhado de piora na qualidade de vida, toxicidades e com baixas taxas de resposta. Terapias inovadores e efetivas são necessárias nesse cenário.
O sacituzumabe govitecan é um anticorpo monoclonal humanizado conjugado de anticorpo-medicamento (CAM) direcionado para Trop2. A molécula sintética, SN-38, é um inibidor da topoisomerase I, que é covalentemente ligada ao anticorpo por um ligante hidrolisável. O sacituzumabe govitecana liga-se às células cancerígenas que expressam Trop2 e é internalizado com a liberação subsequente de SN-38 por meio da hidrólise do ligante. O SN-38 interage com a topoisomerase I e impede a religação das quebras de fitas simples. O dano resultante ao DNA leva à apoptose e morte celular. Trop2 é um transdutor transmembrana ligado à progressão do tumor e associado a pior prognóstico e é altamente expresso em aproximadamente 80% dos cânceres de mama, independentemente do subtipo.
O Sacituzumabe govitecan é aprovado em vários países para o tratamento de pacientes com câncer de mama triplo negativo avançado ou metastático que tenham recebido pelo menos duas terapias sistêmicas anteriores (pelo menos pelo menos um para doença metastática).
O TROPICS-02 é um estudo de fase 3, randomizado, que avaliou o uso do sacituzumabe govitecan em pacientes com câncer de mama metastático HR+, Her2 negativo, resistentes a hormônio e quimioterapia. Baseado em análises primárias o sacituzumabe demonstrou melhora estatisticamente significativa na sobrevida livre de progressão (PFS) em comparação com quimioterapia de agente único, com redução de 34% no risco de progressão da doença ou morte (p=0·0003) e uma maior proporção de pacientes vivos e livres de progressão em todos os pontos de tempo de referência, com três vezes mais pacientes sem progressão em 1 ano de acompanhamento (21% versus 7%).
Foi publicado na revista Lancet em 23 de agosto de 2023 os resultados da análise final de sobrevida global do estudo TROPiCS-02 de sacituzumabe govitecan versus quimioterapia em pacientes com câncer de mama metastático HR+ e HER2–. Nessa análise 543 pacientes foram avaliados (272 no grupo do sacituzumabe govitecan e 271 no grupo de quimioterapia).
Com um follow-up médio de 12,5 meses, ocorreram 390 mortes. A sobrevida global foi significativamente melhor com sacituzumabe quando comparado a quimioterapia (média de 14,4 meses [IC 95% 13,0 –15,7] x 11,2 meses [10,1–12,7]; HR 0,79 (IC 95% 0,65 – 0,96; p=0,020); o benefício de sobrevida se manteve dentre os subgrupos com expressão de Trop2. A taxa de resposta global foi significativamente melhor com sacituzumabe govitecan quando comparada com quimioterapia (57 [21%] pacientes x 38 [14%]; odds ratio 1,63 [IC 95% 1,03–2,56]; p=0,035), assim como o tempo de deterioração do status de saúde global e qualidade de vida (media 4,3 meses x 3,0 meses; HR 0,75 [0,61–0,92]; p=0,0059).
O perfil de segurança do sacituzumabe govitecan foi semelhante a estudos prévios (primeira análise do TROPiCS-02 e ASCENT trial). Os efeitos adversos ocorreram mais nos grupo do sacituzumabe govitecan do que no grupo da quimioterapia, e os mais comuns foram neutropenia (71% x 55%), diarréia (62% x 23%), náusea (59% x 35%), alopécia (48% x 18%) e anemia (37% x 28%).
Nos pacientes que fizeram uso do sacituzumabe govitecan, seis tiveram eventos adversos fatais. Um foi determinado como relacionado ao tratamento (choque séptico causado por colite neutropênica), os demais eventos adversos fatais incluiram pneumonia por COVID-19, embolia pulmonar, pneumonia, distúrbio do sistema nervoso e arritmia. Não foram relatados eventos adversos fatais no grupo de quimioterapia.
Como conclusão temos que o Sacituzumabe govitecan demonstrou benefício estatisticamente significativo e clinicamente significativo em relação quimioterapia, com uma melhoria na média de sobrevida global de 3,2 meses e um perfil de segurança controlável. Estes dados apoiam sacituzumabe govitecan como uma nova opção de tratamento para pacientes com câncer de mama metastático HR+, HER2- previamente tratados e com resistência endócrina.
Referência: thelancet.com (Published online August 23, 2023 https://doi.org/10.1016/S0140-6736(23)01245-X)
*Nossos médicos desenvolvem comentários sobre artigos relacionados à oncologia.