*Comentado por Dra. Carolina Cavalcanti
A neoplasia maligna colorretal (CCR) representa atualmente um problema de saúde pública global, sendo o terceiro câncer mais incidente e a segunda principal causa de morte por câncer no mundo, com aproximadamente 1.9 milhão de novos casos e cerca de 900 mil óbitos anuais¹. Fatores modificáveis, como dieta e atividade física, podem influenciar na incidência e no prognóstico da doença.
Estudos prévios já demonstraram que a atividade física após o diagnóstico de CCR está associada à redução significativa da mortalidade específica e global².
Diante desse cenário, um estudo clínico publicado em 26 de março de 2026 no Journal of Clinical Oncology (JCO) também abordou o impacto da dieta e atividade física nos pacientes tratados para CCR. Trata-se de um ensaio clínico randomizado multicêntrico de fase II que realizou intervenções estruturadas de estilo de vida, combinando orientação dietética e promoção de atividade física, em pacientes tratados para câncer colorretal com intenção curativa. O estudo foi realizado em três centros no Norte da África e incluiu 300 pacientes. Os candidatos foram randomizados em quatro grupos: intervenção combinada (dieta + atividade física), dieta isolada, atividade física isolada e cuidados habituais. As intervenções duraram 12 meses. Os desfechos primários foram mudanças comportamentais relacionadas à dieta e ao nível de atividade física, enquanto os desfechos secundários incluíram sobrevida livre de doença (SLD), sobrevida global (SG) e qualidade de vida.
A dieta e atividade física resultaram em melhora significativa nos desfechos comportamentais, com aumento sustentado dos níveis de atividade física moderada a vigorosa (210 minutos por semana) e melhora da qualidade da dieta, especialmente no grupo que combinou as duas intervenções (dieta e atividade física). Esses pacientes apresentaram maior adesão a recomendações nutricionais, com aumento da ingestão de fibras e redução do consumo de carnes vermelhas e processadas (até 450 gramas por semana), além de manutenção dessas mudanças ao longo do acompanhamento.
Em um tempo de follow-up mediano de 24 meses, ocorreram 33 recorrências e 20 mortes. O grupo submetido à intervenção combinada (dieta e atividade física) apresentou benefício significativo em sobrevida livre de doença (SLD), com redução de 75% no risco de recorrência (HR 0,25; IC95% 0,08–0,78; p=0,01). As taxas de SLD em 2 anos foram de 96,0% no grupo combinado versus 84,0% no grupo controle. Os grupos submetidos a intervenções isoladas apresentaram tendência favorável, mas sem significância estatística.
Tabela 1 – Dados de Sobrevida Livre de Doença em 300 pacientes do Norte da África em remissão do câncer colorretal randomizados para intervenções de dieta e atividade física
| SLD* em 2 anos (%) | HR** para recorrência | Interpretação | |
| Dieta + Atividade Física | 96,0% | 0,25 (IC95% 0,08–0,78) | Redução de 75% no risco |
| Dieta isolada | 89,3% | 0,60 (não significativo) | Tendência favorável |
| Atividade física isolada | 86,7% | 0,72 (não significativo) | Tendência favorável |
| Cuidados habituais | 84,0% | Referência | — |
*SLD – Sobrevida Livre de Doença; **HR – Hazard ratio
A sobrevida global SG foi de 97,3% nos pacientes do grupo da dieta e atividade física e de 85,3% no grupo submetido aos cuidados habituais. Isso representou uma redução de 82% no risco de morte (HR 0,18; IC95% 0,04–0,78; p=0,01), em comparação ao cuidado habitual.
Gráfico 1 – Foto do Gráfico forest plot de Sobrevida Global em 300 pacientes do Norte da África em remissão do câncer colorretal randomizados para intervenções de dieta e atividade física
Ademais, ocorreu melhora significativa na qualidade de vida em todos os grupos de intervenção, com maior magnitude no grupo combinado. Importante destacar que os resultados foram consistentes entre os subgrupos clínicos, incluindo idade, sexo, estadiamento e comorbidades.

Por fim, o estudo mostra que intervenções estruturadas combinando orientação dietética e atividade física, são capazes de promover melhora significativa em desfechos comportamentais, qualidade de vida e, de forma exploratória, em sobrevida livre de doença e sobrevida global em sobreviventes de câncer colorretal. O benefício foi mais pronunciado no grupo submetido à intervenção combinada, sugerindo um efeito sinérgico entre dieta e atividade física. Ressalta-se que os resultados de sobrevida devem ser interpretados com cautela devido ao número limitado de eventos, tempo curto de follow-up e devido ao desenho de fase II. Mesmo assim, os achados reforçam o papel potencial dessas intervenções como componente extremamente relevante no cuidado oncológico no seguimento dos pacientes.
REFERÊNCIAS:
- Sung H, Ferlay J, Siegel RL, Laversanne M, Soerjomataram I, Jemal A, et al. Global cancer statistics 2020: GLOBOCAN estimates of incidence and mortality worldwide for 36 cancers in 185 countries. CA Cancer J Clin. 2021;71(3):209-49.
- Meyerhardt JA, Giovannucci EL, Holmes MD, Chan AT, Chan JA, Colditz GA, et al. Physical activity and survival after colorectal cancer diagnosis. J Clin Oncol. 2006;24(22):3527-34.
- Ben Kridis W, Aboturkia AM, Aqoup MO, Abdoalmola MO, Ben Ali S, Khanfir A. Diet and physical activity interventions to improve outcomes in colorectal cancer survivors: a multicenter randomized controlled trial in North Africa. JCO Glob Oncol. 2026;12:e2500649. DOI: 10.1200/GO-25-00649.
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