Comentado por Dra. Carolina Ferraz*
Um estudo recente publicado no Journal of Clinical Oncology desenvolveu e validou um biomarcador baseado em inteligência artificial (IA) aplicado à histologia tumoral, capaz de ajudar na escolha da quimioterapia de primeira linha para pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático avançado.
O câncer de pâncreas avançado apresenta prognóstico desfavorável e, na maioria dos casos, o tratamento inicial baseia-se em quimioterapia citotóxica. Atualmente, dois esquemas são amplamente utilizados:
• Regimes baseados em fluoropirimidina, como FOLFIRINOX
• Regimes baseados em gemcitabina, como gemcitabina associada ao nab-paclitaxel.
Até o momento, não existem biomarcadores confiáveis que orientem a escolha entre esses dois esquemas, e a decisão costuma basear-se principalmente no estado clínico do paciente e na experiência do médico.
Os pesquisadores utilizaram a plataforma de inteligência artificial CHAI (Computational Histology Artificial Intelligence) para analisar imagens digitalizadas de biópsias tumorais coradas com hematoxilina e eosina.
O sistema identificou mais de 30 mil características histomorfológicas do tumor e do microambiente, como:
• morfologia nuclear
• organização celular
• densidade do estroma
• infiltração imunológica
Com base nessas características, foi desenvolvido um biomarcador capaz de classificar os pacientes em dois grupos:
• F- quimio – maior benefício esperado com quimioterapia baseada em fluoropirimidina
• G-quimio – maior benefício esperado com quimioterapia baseada em gemcitabina.
O estudo incluiu 477 pacientes com câncer de pâncreas avançado:
• 178 pacientes na coorte de desenvolvimento
• 299 pacientes na coorte de validação, provenientes de dois estudos prospectivos internacionais (COMPASS e Know Your Tumor).
Na análise de validação:
• Pacientes classificados como F tiveram melhores resultados quando tratados com quimioterapia baseada em fluoropirimidina, com taxas de sobrevida global mediana: 14,4 meses vs 11,7 meses com gemcitabina e tempo até próximo tratamento ou morte: 8,6 vs 7,5 meses.
• Pacientes classificados como G apresentaram melhor controle da doença com quimioterapia baseada em gemcitabina , tempo até próximo tratamento ou morte: 9,6 vs 7,2 meses com fluoropirimidina.
Os resultados demonstraram interação estatisticamente significativa entre o biomarcador e o tipo de tratamento, indicando capacidade de prever qual regime tende a ser mais eficaz para cada paciente.
Os autores estimam que mais de 40% dos pacientes poderiam ter recebido um tratamento inicial diferente e potencialmente mais eficaz se o biomarcador tivesse sido utilizado para orientar a decisão terapêutica.
Uma vantagem importante dessa abordagem é que o teste:
• utiliza lâminas de biópsia já obtidas rotineiramente,
• não consome tecido adicional,
• pode ser realizado com tempo de resposta inferior a 72 horas.
Como conclusão , este estudo demonstra que biomarcadores baseados em inteligência artificial aplicados à patologia digital podem auxiliar na personalização do tratamento do câncer de pâncreas avançado, ajudando a selecionar entre regimes baseados em fluoropirimidina ou gemcitabina.
Embora sejam necessários estudos prospectivos adicionais para confirmar sua utilidade clínica, essa abordagem representa um passo promissor rumo à oncologia de precisão também na escolha da quimioterapia citotóxica.
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