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Real Oncologia

ESMO 2025: ENGOT-ov65 / KEYNOTE-B96 – Pembrolizumabe para câncer de ovário recorrente resistente à platina

*Comentado por Dra. Samara Aquino

O câncer de ovário continua sendo uma das neoplasias ginecológicas mais letais, responsável por elevada mortalidade mundial, com mais de 60% das pacientes apresentando doença avançada ao diagnóstico e altas taxas de recidiva nos primeiros três anos após o tratamento inicial. No cenário de recidiva resistente à platina, a sobrevida global raramente ultrapassa 12 a 15 meses e, até recentemente, nenhuma inovação havia modificado o padrão de tratamento. Contudo esse cenário vem mudando lentamente após dados dos estudos MIRASOL (mirvetuximabe soravtansina) e ROSELLA (com relacorilante) que mostraram benefício em sobrevida global nesta população.

Apesar de quase uma década de tentativas com imunoterapia, incluindo ensaios de grande porte como JAVELIN 100/200, IMagyn050, DUO-O, FIRST e ATHENA-COMBO, nenhum havia demonstrado benefício significativo de sobrevida livre de progressão (PFS) ou sobrevida global (OS) — refletindo o microambiente “imunologicamente frio” e o papel limitado do PD-L1 isoladamente como biomarcador preditivo. Essa sequência de resultados negativos reforçou a necessidade de estratégias racionais de combinação, capazes de transformar o microambiente tumoral e otimizar o efeito dos inibidores de checkpoint.

Foi nesse contexto que surgiu o ENGOT-ov65/KEYNOTE-B96, o primeiro estudo fase III a demonstrar ganho de sobrevida global com imunoterapia em câncer de ovário resistente à platina. O racional biológico se apoiou na ação imunomodulatória do paclitaxel metronômico, que promove apoptose imunogênica, aumenta infiltração de linfócitos T e reduz células T regulatórias, e na sinergia com o bevacizumabe, que normaliza a vasculatura tumoral e favorece o recrutamento imune

Este é um estudo fase III, duplo-cego e randomizado (N = 643) que comparou pembrolizumabe 400 mg + paclitaxel semanal (± bevacizumabe) versus placebo + paclitaxel (± bevacizumabe) em pacientes com até duas linhas prévias de tratamento. Cerca de 70% das pacientes tinham PD-L1 ≥ 1, 73% fizeram uso de bevacizumabe no estudo e cerca de 45% tinham feito uso de bevacizumabe prévio, além de cerca de 35% com uso prévio de inibidor de PARP. O desfecho primário (PFS) foi atingido tanto na população CPS ≥ 1 (HR 0,72; p = 0,0014) quanto na população ITT (HR 0,70; p < 0,0001). Na atualização de março de 2025, a sobrevida global também foi significativamente superior no grupo pembrolizumabe + paclitaxel ± bevacizumabe com mediana 18,2 meses versus 14,0 meses; HR 0,76 (IC 95 % 0,61-0,94; p = 0,0053). As taxas de resposta objetiva atingiram 50 % com respostas completas em cerca de 10 % e duração mediana superior a 12 meses. A segurança observada foi compatível com os perfis conhecidos de cada agente, sem novos sinais de toxicidade; eventos imunomediados ocorreram em 39 % das pacientes.

Este é um estudo importante, pois foi o primeiro a evidenciar benefício com imunoterapia em câncer de ovário, abrindo caminho para uma oncologia de precisão mais ampla no ovário recorrente, na qual biomarcadores como receptor de folato (FRα), HER 2 e PD-L1 podendo orientar terapias direcionadas no cenário resistente a platina, devolvendo esperança de sobrevida prolongada para um grupo de pacientes historicamente negligenciado.

*Nossos médicos desenvolvem comentários sobre artigos relacionados à oncologia

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