*Artigo comentado por Dra. Cecília Arraes
Dia 20 de outubro. Começa o Congresso Europeu de Oncologia Clínica de 2023 e o Real Oncologia trará algumas das principais novidades.
Hoje, segundo dia de Congresso e primeiro de sessões Plenárias, não poderíamos deixar de trazer para vocês uma boa novidade sobre câncer de Tireoide.
Comento aqui o resultado do estudo LIBRETTO 531, que avaliou a superioridade de um inibidor de RET versus o tratamento padrão em primeira linha em pacientes com Câncer Medular de Tireoide avançado. Este estudo de fase III, randomizado, comparou a superioridade do tratamento padrão com Cabozantinibe ou Vandetanibe, ambos inibidores de tirosina quinase multitarget.
O Carcinoma Medular de Tireoide é um tumor neuroendócrino pouco frequente, mas extremamente agressivo, originado das células da tireoide produtoras de calcitonina, correspondendo a aproximadamente 5% das Neoplasias de Tireoide. A tumorigênese dessas neoplasias ocorrem por ativação do RET, um receptor de tirosinaquinase proto-oncogene. Ativação constitutiva no RET promove crescimento celular, proliferação, ativação de vias como MAPK, PIK3, entre outras. Mutações no RET são encontradas em 100% das neoplasias medulares associadas à NEM (Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2A e 2B), em 25-50% dos esporádicos e em aproximadamente 90% dos tumores medulares metastáticos.
Até o presente momento, duas opções de tratamento em primeira linha estão disponíveis, tanto cabozantinibe quanto vandetanibe, ambos inibiores multi-alvo, com menor inibição sobre o RET e com perfil de toxicidade de difícil manejo, com 70% dos pacientes exigindo redução de dose para ambos.
O LIBRETTO 001 fase I/II trial já havia mostrado excelente benefício e está medicação já está aprovada para uso pela agência europeia e americana e o estudo de fase III veio consolidar seu benefício. O trial recrutou 291 pacientes, com randomização 2:1, sendo 193 no braço do salpercatinbe e 98 no braço do vandetanibe. A principal mutação encontrada foi M918T em ambos os braços, com aproximadamente 60%. O endpoint primário foi sobrevida livre de progressão (SLP) e desfechos secundário eficácia (tempo para falência do tratamento, taxa de resposta, sobrevida global) e segurança.
Com acompanhamento mediano de 12 meses, o LIBRETTO mostra porque foi selecionado para uma sessão plenárias, com SLP não atingida versus 16,8m para o braço padrão, atingindo um HR de 0,28, com 72% de redução de risco de progressão.
O benefício foi consistente em todos os subgrupos, independente se o braço comparador foi cabozantinibe ou vandetanibe.
Os desfechos de eficácia também impressionaram, com HR de 0,25 para sobrevida livre de falha ao tratamento, com mediana não atingida versus 13,9 meses e com taxa de resposta de 69,9% versus 38,8%.
Os dados de sobrevida global ainda são imaturos, mas 94,8% dos pacientes permaneciam vivos em tratamento versus 85,7% no braço padrão. O estudo permitiu crossover. Dos 24 pacientes que foram elegíveis para crossover, 19 permanecem em tratamento.
Quanto ao perfil de toxicidade, o selpercatinibe mostrou melhora significativa no perfil de tolerância, com evento G3 ou mais de 52,8% versus 76,3%. Em relação a redução de dose, esse percentual também foi significativamente menor – 38,9% versus 79,2% para Cabozantinibe e 72% para Vandetanibe e suspensão definitiva de 4,7% versus 26,8%.
Esses dados reforçam os achados do LIBRETTO 001 e consolidam o selpercatiibe na primeira linha de tratamento dos tumores medulares de tireoide metastáticos.
Referências:
- https://www.esmo.org/meeting-calendar/esmo-congress-2023
- Haudox, J. et al, N Eng J Med, 2023.
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