*Comentado por Dra. Carolina Zitzlaff
Diante da sabida associação entre o tabagismo e o surgimento de neoplasias malignas, como câncer de pulmão, cabeça e pescoço, bexiga, entre outros tipos, é uma dúvida comum se de fato há impacto em redução de mortalidade a suspensão do tabagismo após um diagnóstico de Câncer.
A fim de responder essa pergunta, cerca de 400 estudos realizados entre 1992 e 2012 sugeriam que o hábito de fumar após o diagnóstico de câncer aumentava tanto a mortalidade relacionada ao câncer quanto a mortalidade por todas as causas, além de aumento do risco de progressão de doença e de segundos tumores primários. No entanto, esses dados vinham na sua maioria de estudos retrospectivos e que não avaliavam a temporalidade da suspensão do cigarro com a sobrevida dos pacientes.
Recém publicado no JAMA Oncology, este estudo avaliou a associação entre o momento de início de um programa de cessação do tabagismo após o diagnóstico de câncer e os desfechos de sobrevivência.
Trata-se de uma coorte prospectivo com pacientes diagnosticados com câncer e que fumavam, com objetivo de avaliar desfechos de sobrevida comparando a suspensao do cigarro nos primeiros 6 meses, entre 6 meses e 5 anos, e após 5 anos do diagnóstico.
Os participantes foram acompanhados em três momentos: 3, 6 e 9 meses após o início do tratamento de cessação do tabagismo. O tratamento consistiu em aconselhamento personalizado e farmacoterapia, como adesivos de nicotina, bupropiona, vareniclina, como monoterapia ou em combinação. Mais de 95% das visitas realizadas por telemedicina. A análise dos dados foi realizada entre setembro de 2023 e maio de 2024.
Foram incluídos na análise uma amostra de 4526 pacientes. 2254 (49.8%) eram do sexo feminine e a idadade media dos pacientes era de 55 anos (47-62 anos).
A neoplasia mais comum era câncer de mama (n = 790; 17.5%), de pulmão (n = 782; 17.3%), de cabeça e pescoço (n = 587; 13.0%), e neoplasias hematológicas (n = 375; 8.3%). O tempo médio de seguimento foi de 7.9 (3.3-11.8) anos.
As taxas de cessaçao de tabagismo foram 42% (1900/4526) após 3 meses, 40% (1811/ 4526) após 6, e 36% (1635/4526) aos 9 meses.
– Os melhores resultados de sobrevivência ocorreram para os pacientes que iniciaram o tratamento de cessação dentro dos primeiros 6 meses após o diagnóstico, com um ganho de sobrevida global em 5 anos (61% vs 71%) e em 10 anos ( 52% vs 58%), com benefício sustentado após 15 anos. Mesmo quando o tratamento começou entre 6 meses e 5 anos do diagnóstico, os abstinentes tiveram uma sobrevida superior (6,0 anos contra 4,8 anos). Iniciar o tratamento para cessar tabagismo após 5 anos do diagnostico de cancer não trouxe diferença em sobrevida global.
Em resumo, este estudo sugere que iniciar o tratamento de cessação do tabagismo dentro de 6 meses após o diagnóstico de câncer oferece um importante ganho de sobrevida. A cessação do tabagismo deve ser estimulada precocemente e conduzida por uma equipe com expertise neste tratamento.
JAMA Oncol. doi:10.1001/jamaoncol.2024.4890
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