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Real Oncologia

Carboplatina adjuvante no câncer de mama triplo negativo:onde estamos após CITRINE, RJBC 1501, PATTERN e NRGBR003?

*Comentado pelo Dr. Fernando Baracho


Novos estudos reforçam o racional da platina no TNBC inicial, mas a heterogeneidade dos resultados
mostra que a incorporação dessa estratégia ainda exige seleção criteriosa de pacientes.
A discussão sobre o papel da carboplatina no tratamento adjuvante do câncer de mama triplo
negativo (TNBC) ganhou novo fôlego com a publicação recente de estudos randomizados que
revisitam uma pergunta clinicamente relevante: intensificar a quimioterapia adjuvante com platina
melhora desfechos em doença inicial? O racional biológico permanece convincente,
especialmente diante da maior instabilidade genômica e da sensibilidade a dano ao DNA
frequentemente observadas nesse subtipo. Ainda assim, a leitura crítica da literatura mostra que a
resposta está longe de ser linear.


O estudo CITRINE, apresentado no SABCS 2025 e publicado no BMJ em 2025, trouxe um
resultado formalmente positivo. A adição de carboplatina levou a melhora significativa em
sobrevida livre de doença (DFS), com HR 0,64 (IC 95% 0,43–0,95; p=0,03), e taxas de DFS em 3
anos de 92,3% no braço experimental versus 85,8% no controle.¹ Trata-se de um achado
relevante, sobretudo em uma doença marcada por maior risco de recidiva precoce. No entanto, o
próprio estudo impõe cautela: houve violação da premissa de riscos proporcionais (p=0,02), e o
efeito favorável observado inicialmente perdeu força após 36 meses, com HR de 1,98 nesse
período tardio.¹ Em outras palavras, o benefício pode estar concentrado na prevenção de eventos
precoces, sem necessariamente se traduzir em vantagem sustentada ao longo do tempo.


No mesmo sentido, o estudo RJBC 1501, apresentado no SABCS 2025 e publicado no Journal
of Clinical Oncology em 2025, também apoiou a incorporação da carboplatina no cenário
adjuvante. O ensaio demonstrou melhora significativa de DFS com a intensificação do tratamento,
com HR 0,66 (p=0,034), além de benefício em sobrevida livre de doença à distância (DDFS; HR
0,61) e sobrevida global (OS; HR 0,39).² Esses dados tornam o resultado particularmente
relevante, já que não se restringem a um único desfecho intermediário. Como esperado, houve
maior incidência de toxicidade hematológica grau 3–4, especialmente neutropenia e
trombocitopenia, mas sem aumento expressivo de eventos não hematológicos graves.² O balanço
entre eficácia e toxicidade, portanto, parece favorável, ao menos em pacientes adequadamente
selecionadas.


Ainda assim, uma visão equilibrada exige considerar tanto os estudos positivos quanto os
dados menos entusiasmantes. O PATTERN, publicado no JAMA Oncology em 2020, já havia
mostrado ganho em DFS em 5 anos com um regime contendo carboplatina, com HR 0,65
(p=0,03), servindo como um dos primeiros sinais robustos a favor da estratégia.³ Sua principal
limitação, porém, é o fato de o braço controle utilizar CEF-T, esquema que não corresponde
integralmente ao padrão contemporâneo de muitas diretrizes.³ Por outro lado, o NRG-BR003,
grande ensaio ocidental apresentado no ASCO 2025, não atingiu significância estatística para seu
desfecho principal, com HR 0,77 (p=0,097), apesar de um ganho absoluto de 5,1% em iDFS em 5
anos (82,9% versus 77,8%).⁴˒⁵ Além disso, nem os desfechos secundários, como DRFI e OS,
alcançaram significância estatística.⁴˒⁵ Esse resultado funciona como importante contrapeso aos
estudos chineses mais recentes e sugere que o benefício da carboplatina no adjuvante pode
depender de fatores relacionados à população estudada, ao desenho do tratamento e talvez à
biologia tumoral.


À luz desses dados, a carboplatina adjuvante no TNBC parece ser uma estratégia promissora,
mas ainda não universal. O conjunto da evidência aponta para um sinal consistente de benefício,
especialmente na redução de recidivas precoces, porém com resultados não completamente
homogêneos entre os estudos. Em um cenário em que a terapêutica do TNBC inicial também
passou a ser influenciada por esquemas com imunoterapia no contexto neoadjuvante, a tomada
de decisão se torna ainda mais complexa. Por ora, a melhor leitura talvez seja esta: a carboplatina
tem potencial valor no tratamento adjuvante do TNBC, mas sua incorporação deve ser
individualizada, criteriosa e guiada por avaliação clínica refinada do risco e da tolerabilidade.¹⁻⁵
Referências

  1. Liu Y, Gong Y, Zhu XZ, et al. Effect of Adjuvant Carboplatin Intensified Chemotherapy Versus Standard
    Chemotherapy on Survival in Women With High Risk, Early Stage, Triple Negative Breast Cancer (CITRINE):
    Randomised, Open Label Phase 3 Trial. BMJ. 2025.
  2. Chen X, Huang J, Shi H, et al. Adjuvant Epirubicin Plus Cyclophosphamide Followed by Taxanes With or
    Without Carboplatin in Early-Stage Triple-Negative Breast Cancer (RJBC 1501): A Randomized Phase III Trial.
    Journal of Clinical Oncology. 2025.
  3. Yu KD, Ye FG, He M, et al. Effect of Adjuvant Paclitaxel and Carboplatin on Survival in Women With Triple
    Negative Breast Cancer: A Phase 3 Randomized Clinical Trial. JAMA Oncology. 2020.
  4. Ismaili N. The Major Advances of the Year in Breast Cancer: A Point of View After the ASCO 2025 Annual
    Meeting. Cancer Investigation. 2026.
  5. Valero V, Tang G, Rastogi P, et al. NRG-BR003: A randomized phase III trial comparing doxorubicin plus
    cyclophosphamide followed by weekly paclitaxel with or without carboplatin for node-positive or high-risk node
    negative TNBC. Journal of Clinical Oncology. 2025.
    Revisão feita por Fernando Baracho

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