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Real Oncologia

Capecitabina Metronômico Adjuvante no Câncer de Mama Triplo-Negativo: Resultados do Estudo SYSUCC-001

*Comentado pelo Dr. Fernando Baracho.         

O estudo SYSUCC-001, publicado na JAMA em 2020, avaliou a eficácia da terapia de manutenção com capecitabina em baixa dose e alta frequência em pacientes com câncer de mama triplo-negativo (TNBC) em estágio inicial, após tratamento adjuvante padrão.

Contexto e Objetivo
          O câncer de mama triplo-negativo apresenta alta taxa de recorrência e prognóstico desfavorável, mesmo após uso do tratamento padrão. O objetivo deste estudo foi avaliar a eficácia e os efeitos adversos da capecitabina em baixa dose como terapia de manutenção, buscando reduzir o risco de recorrência e morte. A abordagem utilizada exemplifica a quimioterapia metronômica, que consiste na administração de quimioterápicos em doses baixas e de forma contínua, visando inibir a angiogênese tumoral e estimular a resposta imunológica.

Metodologia
          Estudo clínico randomizado, conduzido em 13 centros na China entre abril de 2010 e dezembro de 2016, com seguimento final até abril de 2020. Um total de 443 pacientes foram randomizadas 1:1 para os grupos:

  • Capecitabina (n=222): 650 mg/m2 duas vezes ao dia por 1 ano sem interrupção;
  • Observação (n=221): sem terapia adicional após quimioterapia adjuvante.

         O desfecho primário foi a sobrevida livre de doença (DFS). Desfechos secundários incluíram sobrevida livre de doença à distância (DDFS), sobrevida global (OS), sobrevida livre de recorrência locorregional e eventos adversos.

Resultados Principais

  • Sobrevida Livre de Doença (DFS):
    • 5 anos: 82,8% no grupo capecitabina vs. 73,0% no grupo observação;
    • Hazard ratio (HR): 0,64 (IC 95%: 0,42-0,95; p = 0,03).
  • Sobrevida Livre de Doença à Distância (DDFS):
    • 5 anos: 85,8% vs. 75,8%;
    • HR: 0,60 (IC 95%: 0,38-0,92; p = 0,02).
  • Sobrevida Global (OS):
    • 5 anos: 85,5% vs. 81,3%;
    • HR: 0,75 (IC 95%: 0,47-1,19; p = 0,22).
  • Sobrevida Livre de Recorrência Locorregional:
    • 5 anos: 85,0% vs. 80,8%;
    • HR: 0,72 (IC 95%: 0,46-1,13; p = 0,15).

Perfil de Segurança

          O evento adverso mais comum relacionado à capecitabina foi a síndrome mão-pé, ocorrendo em 45,2% dos pacientes, sendo 7,7% de grau 3. Outros eventos incluíram:

  • Leucopenia (23,5%),
  • Elevação de bilirrubina (12,7%),
  • Dor abdominal/diarreia (6,8%).

Discussão
          Recentemente, uma metanálise com 3.151 pacientes, incluindo o estudo CIBOMA, demonstrou aumento da sobrevida global com a adição de capecitabina administrada em algum ponto do tratamento adjuvante⁽¹⁾. Além disso, o estudo SYSUCC-001, tema deste resumo, testou o uso da capecitabina metronômica na dose de 650 mg/m2 via oral, 12/12h continuamente por 1 ano, demonstrando melhora na sobrevida livre de doença e de metástases a distância, mas sem poder estatístico para comprovar benefício em sobrevida global, com HR: 0,75 (IC 95%: 0,47-1,19; p = 0,22)⁽²⁾.

         Para pacientes com câncer de mama triplo-negativo que receberam tratamento com quimioterapia adjuvante, é fundamental a consideração dos resultados dos painéis de câncer de mama hereditário, sobretudo quanto a presença de mutação patogênica do BRCA1 e/ou BRCA2. O estudo OlympiA demonstrou que pacientes com essas mutações se beneficiam significativamente do uso adjuvante de olaparibe por um ano, melhorando a sobrevida global e devendo ser a escolha prioritária nesses casos⁽³⁾. A capecitabina metronômica, conforme estudado no SYSUCC-001, deve ser considerada apenas para pacientes que não possuem mutações em BRCA1 ou BRCA2, sendo uma opção eficaz para redução do risco de recorrência nesses casos.

Alerta
         Recomenda-se fortemente que pacientes com câncer de mama triplo-negativo cujos tumores tenham dimensão igual ou superior a 1 cm e/ou envolvimento linfonodal recebam tratamento neoadjuvante, visando ao aumento das chances de resposta patológica completa e  à melhora dos desfechos de sobrevida.

         Vale ressaltar que a discussão sobre a adição de capecitabina como terapia adjuvante tem como objetivo melhorar os desfechos de sobrevida nas pacientes que não tiveram a oportunidade de realizar tratamento neoadjuvante. 

Referências

  1. Estudo CIBOMA: Li Y, Zhou Y, Mao F, et al. Breast Cancer Res Treat. 2020;179(3):533-542. doi: 10.1007/s10549-019-05513-4.
  2. Estudo SYSUCC-001: Wang X, et al. JAMA. 2020.
  3. Estudo OlympiA: Tutt ANJ, et al. Ann Oncol. 2022;33(5):566-568. doi: 10.1016/j.annonc.2022.03.008.

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