Nos últimos anos vimos indicação cada vez mais frequente de uso de bisfosfonato para tratamento de acometimento ósseo relacionado ao câncer.
Dentro dessa classe de medicamentos uns dos mais utilizados é o ácido zoledrônico (AZ) e o denosumabe com benefício evidente, mas, que também pode ocasionar efeitos adversos como osteonecrose de mandíbula (ONM).
Com o objetivo de estudar essa associação e a verdadeira incidência dessa patologia, foi publicado na revista médica JAMA Oncology em dezembro de 2020 o estudo SWOG S0702.
Trata-se de estudo de coorte, observacional e multicêntrico em pacientes com doença óssea metastática ou mieloma múltiplo com indicação de uso de AZ ou denosumabe e sem uso prévio dos mesmos.
Foram recrutados 3491 pacientes entre 30/01/2009 e 13/12/2013, inicialmente o estudo exigia avaliação dentária semestralmente, porém após dois anos passou a ser apenas uma recomendação.
O objetivo do estudo foi analisar a incidência cumulativa em três anos de ONM, definida como exposição óssea em região maxilofacial por mais que oito semanas e sem radioterapia em região craniofacial concomitante, diversos fatores de risco também foram analisados.
Dos 3491 paciente, 1806 eram mulheres (51,7%), a idade mediana foi de 63,1 anos (24-93,9 anos), 1120 tinham câncer de mama, 580 mieloma múltiplo, 702 pacientes com câncer de próstata, 666 com câncer de pulmão e 423 com outras neoplasias.
No total, 90 pacientes desenvolveram ONM, com a incidência de 0,8% (95% IC, 0,5%-1,1%) no primeiro ano, 2% (95% IC, 1,5%-2,5%) no segundo ano e 2,8% (95% IC, 2,3%-3,5%) no terceiro ano.
A incidência cumulativa em 3 anos foi maior em pacientes com mieloma múltiplo (4,3%, 95%IC, 2,8-6,4%), uso do bisfosfonato com intervalo menor do que 5 semanas x mais que 5 semanas (HR 4,65; 95% IC, 1,46-14,81; P=0,009). Maior taxa de ONM foi associada com menor número total de dentes (HR 0,51; 95% IC 0,31-0,83; P=0,006), uso de próteses dentárias (HR 1,83; 95% IC 1,10-3,03; P=0,02) e com tabagismo atual (HR 2,12; 95%IC 1,12-4,02; P = 0,02).
Entre os 460 indivíduos que fizeram uso de denosumabe, 11 apresentaram osteonecrose de mandíbula com uma incidência cumulativa em 3 anos de 3,2% (IC 95% 1,8-5,1%). O número mediano de doses de ácido zoledrônico e de denosumabe foram 2 e 10, respectivamente.
Tais dados nos fornecem informações para nos guiar em uma estratificação de risco para desenvolvimento de ONM em pacientes com doença neoplásica óssea em uso de bisfosfonato ou denosumabe e nos alerta para um efeito adverso potencial dessa medicação e que em alguns casos é negligenciado.