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Real Oncologia

ASCO 2025 – NIVOPOSTOP: Um Novo Marco no Tratamento Adjuvante do Câncer de Cabeça e Pescoço

Comentado por Dra.Cecília Arraes*

O tratamento do carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço localmente avançado (LA-HNSCC) permanece um desafio clínico. Apesar dos avanços cirúrgicos e da consolidação da radioterapia adjuvante com ou sem cisplatina como padrão para pacientes com fatores de alto risco, taxas de recidiva e sobrevida ainda são subótimas. Um terço dos pacientes recorrem em um ano e menos da metade está livre de recorrência em cinco anos.

                Na ASCO 2025, um estudo em cabeça e pescoço ganhou a plenária por resultados relevantes no tratamento desses tumores de alto risco: O NIVOPOSTOP. Esse trabalho apresentado, mas ainda não publicado e o Keynote 689, publicado na New England durante a ASCO 2025, trazem novas estratégias para esses pacientes, modificando o paradigma de mais de duas décadas, baseado em cisplatina e radioterapia.

                O estudo NIVOPOSTOP (GORTEC 2018-01) foi um ensaio clínico de fase III, multicêntrico, randomizado e aberto. O objetivo foi avaliar se a adição de nivolumabe ao tratamento adjuvante padrão com quimiorradioterapia (CRT) após ressecção cirúrgica de tumores escamosos de cabeça e pescoço localmente avançados, em pacientes com alto risco de recidiva, melhoraria a sobrevida livre de doença (DFS). O estudo foi conduzido em seis países europeus, sob coordenação do grupo GORTEC, grupo francês.

                Foram incluídos pacientes entre 18 e 75 anos, com performance status ECOG 0 ou 1, portadores de carcinoma escamoso da cavidade oral, orofaringe, hipofaringe ou laringe, submetidos à ressecção cirúrgica com intenção curativa. Eram elegíveis apenas aqueles com critérios patológicos de alto risco de recidiva, como extensão extracapsular linfonodal, margens positivas, múltiplos linfonodos comprometidos ou invasão perineural significativa. A radioterapia adjuvante deveria ser iniciada entre 4 e 9 semanas após a cirurgia.

                Um total de 680 pacientes foi randomizado: 346 para o braço experimental, que recebeu nivolumabe adjuvante após cirurgia, seguido por nivolumabe associado à CRT (cisplatina 100 mg/m² a cada 3 semanas + radioterapia 66 Gy), seguido de nivolumabe de manutenção por até 6 meses, totalizando 8 meses de tratamento; e 334 para o braço controle, que recebeu apenas a CRT padrão. A população era predominantemente masculina (cerca de 75%), com idade mediana de 59 anos. Aproximadamente 45% dos pacientes apresentavam doença estádio IVB e cerca de 58% tinham tumores primários de cavidade oral. Cerca de 50% eram tabagistas ativos, e a expressão de PD-L1 (CPS ≥1) estava presente em mais de 75% dos casos. Apenas 5% dos pacientes eram positivos para p16 nos tumores de orofaringe.

                Com mediana de seguimento de 30,3 meses, o estudo demonstrou benefício clínico e estatisticamente significativo em favor da adição de nivolumabe. A taxa de sobrevida livre de doença em 3 anos foi de 63,1% no braço experimental versus 52,5% no braço padrão (hazard ratio [HR] 0,76; IC 95%: 0,60–0,98; p = 0,034), representando uma redução de 24% no risco de recidiva ou morte. Houve também menor incidência cumulativa de recidiva locorregional aos 3 anos: 13% no grupo com nivolumabe versus 20% no grupo controle (HR 0,63; IC 95%: 0,42–0,94).

                Em relação à toxicidade, eventos adversos grau 3–4 foram semelhantes entre os grupos, com exceção da disfunção renal, que foi mais frequente no braço experimental (11% versus 5%). A frequência de estomatite, disfagia, mucosite e lesão cutânea induzida por radiação foi alta em ambos os grupos, como esperado com CRT, mas sem incremento substancial com a adição de nivolumabe.

                Esse é o primeiro estudo em mais de duas décadas a demonstrar superioridade de um novo tratamento ADJUVANTE sobre a quimiorradioterapia padrão em câncer escamoso de cabeça e pescoço localmente avançado com fatores de alto risco, com implicações potenciais para mudança de prática clínica. Embora os dados de sobrevida global ainda não estejam maduros, os resultados de DFS já sustentam a adoção dessa estratégia em pacientes com alto risco de recidiva, independentemente da expressão de PD-L1.

Referências:

  1. Bourhis J, Auperin A, Borel C, et al. NIVOPOSTOP (GORTEC 2018‑01): a phase III randomized trial of adjuvant nivolumab added to radio‑chemotherapy in patients with resected head and neck squamous cell carcinoma at high risk of relapse (Abstract LBA2). J Clin Oncol. 2025;43(suppl 17):LBA2.
  2. ASCO Post Staff. Adding nivolumab to adjuvant chemoradiotherapy reduces risk of recurrence in locally advanced head and neck cancer. ASCO Post. 1 Jun 2025.
  3. Sava J. Post-operative nivolumab significantly improves disease‑free survival in head and neck cancer. Targeted Oncologist. Jan 2025.

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