*Comentado porDra. Fernando Baracho
Pacientes com câncer apresentam risco aumentado de tromboembolismo venoso (TEV), incluindo trombose venosa profunda (TVP) e embolia pulmonar. Mesmo após seis meses de anticoagulação, esses pacientes permanecem sob risco elevado de recorrência e complicações hemorrágicas. As diretrizes clínicas recomendam manutenção do tratamento anticoagulante enquanto a neoplasia estiver ativa ou em tratamento, mas o balanço entre eficácia e segurança permanece uma preocupação relevante, dado o risco de sangramento que acompanha esse tratamento.
O estudo API-CAT investigou se uma dose reduzida de apixabana (2,5 mg duas vezes ao dia) seria não inferior à dose plena (5,0 mg duas vezes ao dia) na prevenção de eventos tromboembólicos recorrentes em pacientes com câncer ativo após pelo menos seis meses de anticoagulação inicial.
Trata-se de um ensaio clínico internacional, randomizado, duplo-cego e de não inferioridade. Foram incluídos 1.766 pacientes com câncer ativo e histórico de TVP proximal ou embolia pulmonar, que completaram ao menos seis meses de anticoagulação prévia. Os participantes foram randomizados 1:1 para receber apixabana em dose reduzida (2,5 mg) ou dose plena (5,0 mg), ambas duas vezes ao dia, por mais 12 meses.
O desfecho primário foi a recorrência de TEV fatal ou não fatal. O desfecho secundário principal foi sangramento clinicamente relevante, incluindo sangramento maior ou não maior clinicamente relevante. A análise de não inferioridade utilizou como margem um subhazard ratio (SHR) <2,0 para a dose reduzida.
Resultados
- O desfecho primário ocorreu em 18 pacientes (2,1%) no grupo de dose reduzida e 24 pacientes (2,8%) no grupo de dose plena (SHR ajustado 0,76; IC 95%: 0,41-1,41; P = 0,001 para não inferioridade);
- Sangramento clinicamente relevante foi observado em 12,1% dos pacientes no grupo de dose reduzida e em 15,6% no grupo de dose plena (SHR 0,75; IC 95%: 0,58-0,97; P = 0,03 para superioridade);
- Mortalidade global foi semelhante entre os grupos: 17,7% vs. 19,6% (HR 0,96; IC 95%: 0,86-1,06);
- A incidência de sangramento maior, especialmente gastrointestinal, foi menor no grupo de dose reduzida.
O estudo API-CAT demonstrou que a estratégia de dose reduzida de apixabana é eficaz e segura para tratamento prolongado de TEV associado ao câncer. A dose reduzida foi não inferior na prevenção de recorrências tromboembólicas e apresentou menor incidência de sangramentos clinicamente relevantes. Esses resultados são particularmente importantes para pacientes em uso prolongado de anticoagulantes, nos quais a toxicidade acumulada é uma preocupação real.
A seleção de pacientes aptos a receber a dose reduzida deve considerar fatores como local da neoplasia, risco de sangramento, histórico de eventos trombóticos, tempo de anticoagulação prévia e performance status. Este estudo fornece evidências robustas que podem impactar diretrizes e práticas clínicas, promovendo uma abordagem mais individualizada e segura na prevenção secundária do TEV em pacientes com câncer, sobretudo em populações especiais como a de pacientes idosos.
Referências
- Mahé I, Carrier M, Mayeur D, et al. Extended Reduced-Dose Apixaban for Cancer-Associated Venous Thromboembolism. N Engl J Med. 2025 Mar 29. DOI: 10.1056/NEJMoa2416112.
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