*Comentado por Dra. Samara Aquino
A trombocitopenia induzida por quimioterapia (CIT) é uma complicação frequente do tratamento antineoplásico e pode levar a atrasos, reduções de dose ou suspensão da quimioterapia, comprometendo a intensidade relativa de dose. O estudo ACT-GI, publicado no Journal of Clinical Oncology em 2026, avaliou o avatrombopague, agonista oral do receptor de trombopoetina (TPO-RA), no tratamento da trombocitopenia induzida por quimioterapia persistente em pacientes com tumores gastrointestinais.
O ACT-GI foi um estudo fase II, multicêntrico, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, conduzido nos Estados Unidos. Foram incluídos pacientes adultos com câncer gastroesofágico, colorretal, pancreático, hepatobiliar ou de intestino delgado, em qualquer estádio, que apresentassem CIT persistente, definida como contagem de plaquetas ≤85 × 10⁹/L no primeiro dia previsto para um novo ciclo de quimioterapia, apesar de intervalo adequado para recuperação hematológica após o ciclo anterior. Os pacientes deveriam estar recebendo ciclos de 14, 21 ou 28 dias contendo pelo menos um agente citotóxico, incluindo fluoropirimidina, platina, gencitabina, irinotecano, taxano e/ou antraciclina, e ter indicação de continuar o mesmo esquema, nas mesmas doses, caso a contagem plaquetária permitisse.
Ao todo, 47 pacientes foram randomizados na proporção 1:1, sendo 23 para avatrombopague e 24 para placebo. A mediana de idade da população foi de 59 anos (IIQ 47–68), 30% eram mulheres e a maioria apresentava doença metastática, correspondendo a 74% dos pacientes no braço avatrombopague e 88% no placebo. O câncer colorretal foi o tumor mais frequente, representando 57% e 67% dos casos, respectivamente, seguido pelos tumores pancreáticos, gastroesofágicos e biliares. Tratava-se de uma população bastante exposta à quimioterapia, com mediana de 14 ciclos prévios no braço avatrombopague e 15 ciclos no grupo placebo; além disso, 65% e 50% dos pacientes, respectivamente, já haviam necessitado de redução da dose da quimioterapia antes da inclusão.
Após a randomização, o avatrombopague foi iniciado na dose de 40 mg por via oral uma vez ao dia, durante uma fase inicial de até 14 dias. Quando a contagem de plaquetas atingia ≥100 × 10⁹/L, a quimioterapia era reiniciada na mesma dose utilizada antes da inclusão, e o tratamento com avatrombopague era mantido durante um ciclo adicional. A dose poderia ser titulada semanalmente, entre um mínimo de 20 mg três vezes por semana e um máximo de 60 mg/dia, com o objetivo de manter a contagem plaquetária entre 100 e 250 × 10⁹/L.
O desfecho primário combinou recuperação plaquetária para ≥100 × 10⁹/L, ausência de redução de dose ou atraso da quimioterapia por CIT durante o ciclo e manutenção de plaquetas ≥100 × 10⁹/L no início do ciclo subsequente.
O estudo foi interrompido precocemente na análise interina por eficácia (p<0,001). O desfecho primário foi alcançado por 70% dos pacientes tratados com avatrombopague (16/23; IC95% 47–87%), comparado a 17% com placebo (4/24; IC95% 5–37%; p<0,001). A recuperação inicial das plaquetas para ≥100 × 10⁹/L ocorreu em 83% versus 46%, respectivamente. Ao final do ciclo de quimioterapia, a mediana da contagem plaquetária foi de 157 × 10⁹/L (IIQ 136–202) com avatrombopague e 72 × 10⁹/L (IIQ 68–134) com placebo. Nenhum paciente necessitou de transfusão de plaquetas.
Em relação à segurança, eventos adversos de qualquer grau ocorreram em 78% dos pacientes tratados com avatrombopague e 46% daqueles que receberam placebo; eventos grau ≥3 ocorreram em 22% e 8%, respectivamente. Apesar dessa diferença, nenhum evento grau ≥3 ou evento adverso grave foi considerado relacionado ao tratamento. Os eventos mais frequentes com avatrombopague foram cefaleia (17%), diarreia (13%) e náusea (13%). Não foram observados eventos tromboembólicos venosos ou trombocitose. Um AVC isquêmico fatal ocorreu no braço avatrombopague em paciente com doença cerebrovascular prévia, aproximadamente 30 minutos após a primeira dose, sendo considerado não relacionado ao medicamento.
Os resultados demonstram que o avatrombopague pode representar uma estratégia eficaz para pacientes com CIT persistente, aumentando significativamente a probabilidade de recuperação sustentada das plaquetas e permitindo a manutenção da quimioterapia sem atrasos ou reduções de dose relacionados à trombocitopenia. Entretanto, o ACT-GI é um estudo fase II pequeno, com apenas 47 pacientes, e não avaliou sobrevida livre de progressão ou sobrevida global e, até o momento, permanece não demonstrado que a correção da CIT e a preservação da intensidade de dose obtidas com avatrombopague se traduzam em melhora dos desfechos oncológicos de longo prazo.
Referência: Al-Samkari H, Shatzel JJ, Panch SR, et al. Avatrombopag Versus Placebo for Persistent Chemotherapy-Induced Thrombocytopenia in GI Cancers: The Phase II ACT-GI Trial. J Clin Oncol. 2026. doi:10.1200/JCO-26-00568.
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