*Comentado por Dra. Carolina Ferraz
O câncer de pulmão de células não pequenas (CPNPC) escamoso avançado continua associado a prognóstico desfavorável e opções terapêuticas limitadas. O estudo HARMONi-6, um ensaio clínico fase 3 randomizado e duplo-cego, avaliou a eficácia e segurança da combinação de ivonescimabe — um anticorpo biespecífico direcionado simultaneamente ao PD-1 e ao VEGF — associado à quimioterapia, em comparação com tislelizumabe ( imunoterapia anti PD-1) associado à quimioterapia como tratamento de primeira linha em pacientes com CPNPC escamoso avançado.
Foram incluídos 532 pacientes com doença irressecável estágio IIIB, IIIC ou IV, sem tratamento sistêmico prévio, randomizados na proporção 1:1 para receber ivonescimabe (20 mg/kg) ou tislelizumabe (200 mg) combinados com paclitaxel e carboplatina, seguidos de manutenção com o respectivo anticorpo por até 24 meses. O desfecho primário foi sobrevida livre de progressão (SLP) avaliada por revisão radiológica independente.
Após seguimento mediano de aproximadamente 10 meses, o estudo demonstrou benefício significativo em SLP para o grupo tratado com ivonescimabe associado à quimioterapia. A SLP mediana foi de 11,1 meses, comparada a 6,9 meses no grupo tislelizumabe (HR 0,60; p<0,0001), representando uma redução de 40% no risco de progressão ou morte. O benefício foi consistente independentemente da expressão de PD-L1, incluindo pacientes com expressão tumoral inferior a 1%.
A taxa de resposta objetiva também foi superior no braço com ivonescimabe (76% versus 67%), além de maior duração de resposta (11,2 versus 8,4 meses). Esses achados sugerem maior atividade antitumoral com o bloqueio simultâneo das vias PD-1 e VEGF, estratégia que pode aumentar a infiltração de células T no microambiente tumoral e potencializar a resposta imunológica antitumoral.
Em relação à segurança, eventos adversos relacionados ao tratamento ocorreram em quase todos os pacientes, com eventos grau ≥3 em 64% no grupo ivonescimabe e 54% no grupo tislelizumabe. Os eventos mais frequentes incluíram neutropenia, leucopenia e anemia. Eventos relacionados ao bloqueio do VEGF, como hipertensão, proteinúria e hemorragia, foram mais comuns no braço com ivonescimabe, porém a maioria foi de baixo grau. Hemorragias graves ocorreram em apenas 2% dos pacientes, sugerindo perfil de segurança manejável mesmo na histologia escamosa, historicamente associada a maior risco hemorrágico.
Em conclusão, o estudo HARMONi-6 demonstrou que a combinação de ivonescimabe com quimioterapia melhora significativamente a sobrevida livre de progressão em comparação com tislelizumabe associado à quimioterapia em pacientes com CPNPC escamoso avançado, independentemente da expressão de PD-L1.
Esses resultados posicionam o bloqueio simultâneo de PD-1 e VEGF como uma estratégia terapêutica promissora e potencial nova opção de tratamento de primeira linha nessa população.
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