*Comentado por Dra. Carolina Ferraz
O câncer de pulmão de pequenas células em estágio extenso (ES-SCLC) permanece uma doença agressiva, caracterizada por altas taxas de resposta inicial à quimioterapia baseada em platina associada à imunoterapia, porém com rápida recaída e prognóstico desfavorável. Nesse contexto, novas estratégias terapêuticas têm sido investigadas para melhorar os resultados após o tratamento de primeira linha. O estudo DeLLphi-303 avaliou a segurança e a atividade do tarlatamabe, um anticorpo biespecífico engajador de células T direcionado ao DLL3, em combinação com um inibidor de PD-L1 como terapia de manutenção após quimio-imunoterapia de primeira linha em pacientes com ES-SCLC.
O tarlatamabe atua ligando simultaneamente células T (via CD3) e células tumorais que expressam DLL3, promovendo ativação imune e citotoxicidade direcionada ao tumor. Como a expressão de DLL3 ocorre em aproximadamente 85–96% dos tumores de SCLC, esse alvo representa uma estratégia promissora para essa neoplasia.
Neste estudo multicêntrico de fase 1b, não randomizado, 88 pacientes com ES-SCLC sem progressão após quatro a seis ciclos de quimio-imunoterapia com platina e etoposídeo receberam tarlatamabe intravenoso a cada duas semanas associado a atezolizumabe ou durvalumabe como manutenção até progressão da doença. O seguimento mediano foi de 18,4 meses.
Em relação à segurança, todos os pacientes apresentaram algum evento adverso, sendo que eventos grau ≥3 ocorreram em 58%. Os eventos adversos graves mais frequentes incluíram síndrome de liberação de citocinas (24%), febre, síndrome de neurotoxicidade associada a células efetoras imunes (ICANS) e pneumonia. A maioria dos episódios de síndrome de liberação de citocinas foi de baixo grau e manejável, com resolução completa após tratamento de suporte. Não houve óbitos relacionados ao tratamento, e a dose de 10 mg de tarlatamabe a cada duas semanas foi definida como dose recomendada para estudos posteriores.
Do ponto de vista de eficácia, os resultados mostraram atividade clínica promissora. A mediana de sobrevida global foi de 25,3 meses, com taxas de sobrevida de 82% em 12 meses e 75% em 18 meses. A mediana de sobrevida livre de progressão foi de 5,6 meses, com taxa de 47% em 6 meses. A taxa de resposta objetiva foi de 24%, incluindo respostas completas em dois pacientes, e a taxa de controle de doença atingiu 60%. Além disso, 36% dos pacientes apresentaram controle sustentado da doença por pelo menos um ano.
Esses resultados sugerem que a combinação de tarlatamabe com um inibidor de PD-L1 como terapia de manutenção após quimio-imunoterapia apresenta perfil de segurança manejável e potencial benefício clínico significativo em pacientes com ES-SCLC. Embora comparações diretas com estudos prévios devam ser interpretadas com cautela, a sobrevida observada foi superior à relatada em estudos históricos de manutenção apenas com imunoterapia.
Apesar das limitações inerentes a um estudo de fase inicial e não randomizado, os dados sustentam a investigação dessa estratégia em estudos randomizados de fase 3, atualmente em andamento, que poderão definir o papel dessa combinação no tratamento de primeira linha do câncer de pulmão de pequenas células em estágio extenso.
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