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Real Oncologia

ESMO 2025 – Atezolizumabe adjuvante guiado por ctDNA no câncer de bexiga músculo-invasivo.

*Comentado por Dr. Lucas Campos

   O estudo IMvigor011, publicado no New England Journal of Medicine em outubro de 2025, avaliou o uso de atezolizumabe guiado por ctDNA como terapia adjuvante em pacientes com carcinoma urotelial músculo-invasivo após cistectomia. O ensaio clínico fase 3, duplo-cego e randomizado, incluiu 761 pacientes sem evidência radiográfica de doença após cirurgia, monitorados por até um ano com testes seriados de DNA tumoral circulante (ctDNA). Pacientes com resultado ctDNA-positivo foram randomizados (2:1) para atezolizumabe 1680 mg IV a cada 4 semanas ou placebo, por até 12 meses. Aqueles que permaneceram ctDNA-negativos não receberam tratamento adjuvante.

   Dos 761 pacientes, 250 apresentaram ctDNA-positivo e foram randomizados (167 no grupo atezolizumabe e 83 no grupo placebo). O desfecho primário foi sobrevida livre de doença (DFS), e a sobrevida global (OS) foi um desfecho secundário hierarquizado. Após mediana de seguimento de 16,1 meses, o estudo demonstrou melhora significativa na DFS com atezolizumabe: mediana de 9,9 meses (IC95% 7,2–12,7) versus 4,8 meses (IC95% 4,1–8,3) no grupo placebo, com razão de risco (HR) de 0,64 (IC95% 0,47–0,87; p=0,005). A OS também foi superior com atezolizumabe: 32,8 meses (IC95% 27,7–não estimável) versus 21,1 meses (IC95% 14,7–não estimável) no placebo, com HR para morte de 0,59 (IC95% 0,39–0,90; p=0,01). A taxa de clearance de ctDNA em ciclos 3 ou 5 foi de 25% no grupo atezolizumabe e 14% no grupo placebo, sendo o clearance de níveis elevados de ctDNA observado exclusivamente com atezolizumabe.

   Entre os 357 pacientes com ctDNA persistentemente negativo, a sobrevida livre de doença foi 95% ao final de 1 ano e 88% em 2 anos, demonstrando que a ausência sustentada de ctDNA correlaciona-se com excelente prognóstico, permitindo evitar tratamento desnecessário.

   Eventos adversos de grau 3–4 ocorreram em 28% dos pacientes tratados com atezolizumabe versus 22% com placebo; eventos graves relacionados ao tratamento ocorreram em 7% e 4%, respectivamente. Eventos fatais relacionados ao tratamento foram registrados em 2% no grupo atezolizumabe (nenhum no placebo). Reações imuno-mediadas foram mais frequentes com atezolizumabe (39% vs 12%), incluindo um óbito por pneumonite intersticial.

   A análise exploratória demonstrou que os benefícios de atezolizumabe foram consistentes em subgrupos, incluindo pacientes PD-L1 negativos e aqueles que se tornaram ctDNA-positivos tardiamente após a cirurgia. Houve também evidência de benefício independente da expressão de PD-L1, reforçando o valor prognóstico superior do ctDNA.

   O IMvigor011 fornece evidência robusta de que o uso de ctDNA como marcador de doença residual molecular permite selecionar adequadamente pacientes com alto risco de recidiva após cistectomia. O tratamento adjuvante com atezolizumabe em pacientes ctDNA-positivos resultou em ganhos significativos de sobrevida livre de doença e sobrevida global, sem novos sinais de toxicidade relevantes. Já os pacientes com ctDNA persistentemente negativo apresentaram excelente prognóstico sem necessidade de terapia adjuvante. Esses resultados consolidam o papel da estratificação baseada em ctDNA como ferramenta para personalizar o manejo adjuvante do câncer de bexiga músculo-invasivo, reduzindo a exposição desnecessária a imunoterapia e potencialmente redefinindo o paradigma terapêutico na doença.

*Nossos médicos desenvolvem comentários sobre artigos relacionados à oncologia

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