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Real Oncologia

CHALLENGE Trial, apresentado na ASCO 2025: Exercício Físico Estruturado Após Quimioterapia Adjuvante no Câncer de Cólon – Resultados Finais

*Comentando por Dr. Fernando Baracho.

       O CHALLENGE Trial foi outra grande novidade apresentada na ASCO 2025. O maior congresso médico do mundo trouxe muitas novidades em termos de novas terapias e tecnologias, que em geral estão associadas a custos elevados, sobretudo devido a todo investimento realizado durante a fase de desenvolvimento das drogas e das pesquisas clínicas. A prática de atividade física,  intervenção do estudo clínico tema da discussão deste artigo, entretanto, é a mais acessível de todas e com base nos dados que vamos analisar a seguir deverá ser fortemente estimulada.

       O câncer de cólon é a terceira neoplasia mais comum e a segunda principal causa de morte por câncer no mundo. Apesar dos avanços no tratamento adjuvante com esquemas como FOLFOX e CAPOX, cerca de 20 a 40% dos pacientes com câncer de cólon estádio III ou II de alto risco apresentarão recorrência da doença. Além disso, a cirurgia e a quimioterapia impactam negativamente a qualidade de vida e a capacidade funcional dos pacientes.

       Estudos observacionais sugerem uma associação entre maior atividade física após o tratamento oncológico e melhores desfechos de sobrevida. No entanto, até o presente estudo, não havia evidência de nível 1 que confirmasse um benefício causal. O estudo CHALLENGE (Colon Health and Life-Long Exercise Change Trial) foi desenhado para preencher essa lacuna.

Metodologia

  • Desenho: Estudo fase 3, randomizado, multicêntrico, controlado.
  • Período: 2009 a 2024.
  • Centros participantes: 55 centros (principalmente no Canadá e Austrália).
  • População-alvo: Pacientes com adenocarcinoma de cólon estádio III ou II de alto risco, com cirurgia curativa e quimioterapia adjuvante concluída entre 2 e 6 meses antes da inclusão.

Critérios de inclusão principais:

  • ECOG 0–1.
  • Atividade física prévia inferior a 150 minutos por semana de intensidade moderada a vigorosa.
  • Aptidão física mínima documentada por teste submáximo de esforço ou teste de caminhada de 6 minutos.

Intervenções:

  • Grupo Exercício (n=445): Participação em um programa de exercício físico estruturado de 3 anos, com metas de aumento de ≥10 MET-horas/semana de atividade aeróbica moderada a vigorosa. Incluiu sessões presenciais e suporte comportamental.
  • Grupo Controle (n=444): Recebimento apenas de material educacional de saúde.

Desfecho primário:

  • Sobrevida livre de doença (DFS): tempo até recorrência, novo câncer primário ou morte por qualquer causa.

Desfechos secundários:

  • Sobrevida global (OS).
  • Função física autorreferida (questionário SF-36).
  • Condicionamento cardiorrespiratório (VO2 previsto).
  • Distância no teste de caminhada de 6 minutos.
  • Eventos adversos relacionados à intervenção.

Resultados

Características da população

  • Total randomizado: 889 pacientes.
  • Mediana de idade: 61 anos (19 a 84).
  • Sexo feminino: 51%.
  • Estadiamento: 90% com câncer de cólon estádio III.
  • Esquemas de quimioterapia: FOLFOX (61%), CAPOX (14,5%), capecitabina isolada (16,9%).

Adesão ao programa de exercício

  • Alta adesão nas fases iniciais (>80% nas sessões comportamentais e supervisão de exercício).
  • Adesão decrescente nas fases subsequentes, mas com manutenção de níveis elevados de atividade física em comparação ao grupo controle.

Desfechos de Sobrevida

DesfechoGrupo ExercícioGrupo ControleDiferença AbsolutaHazard Ratio (HR)
5 anos de DFS80,3%73,9%+6,4 pontos percentuais0,72 (IC95%: 0,55–0,94; p=0,02)
8 anos de OS90,3%83,2%+7,1 pontos percentuais0,63 (IC95%: 0,43–0,94)
  • Redução de 28% no risco de recorrência ou morte no grupo exercício.
  • Redução de 37% no risco de morte por qualquer causa.

Eventos Adversos

  • Eventos musculoesqueléticos: 18,5% (exercício) vs. 11,5% (controle).
  • Eventos grau ≥3: 15,4% no grupo exercício e 9,1% no controle.
  • Nenhum sinal inesperado de segurança.

Análise de Qualidade de Vida e Condicionamento Físico

  • Melhorias significativas na função física autorreferida (SF-36) no grupo exercício durante todo o período de intervenção de 3 anos.
  • Ganho de condicionamento cardiorrespiratório: aumento de 1,3 a 2,7 ml/kg/min de VO2 previsto no grupo exercício.
  • Aumento de atividade física semanal de aproximadamente 5,2 a 7,4 MET-horas/semana a mais do que o grupo controle.

Discussão

       O CHALLENGE é o primeiro estudo fase 3 com evidência nível 1 a demonstrar que uma intervenção estruturada de exercício físico, iniciada precocemente após quimioterapia adjuvante para câncer de cólon, melhora significativamente a sobrevida livre de doença e apresenta uma tendência de melhora na sobrevida global.

       O ganho de sobrevida, em termos de redução de risco relativo, é comparável ao de muitos tratamentos medicamentosos aprovados. Os benefícios foram consistentes em praticamente todos os subgrupos analisados.

      Os mecanismos propostos incluem efeitos do exercício na imunidade, inflamação, sensibilidade à insulina e controle de micrometástases.

Limitações

  • Baixo número de eventos (apenas 224 dos 380 planejados), o que limita a robustez estatística para OS.
  • Longo tempo de recrutamento (15 anos).
  • Possível viés de seleção para pacientes com melhor performance física.
  • Falta de avaliação de variantes genéticas (ex: síndrome de Lynch).
  • Auto-relato de atividade física, sujeito a viés de memória.

Pontos Fortes

  • Primeiro RCT com desfecho de sobrevida em câncer de cólon testando intervenção de exercício.
  • Longo seguimento mediano: 7,9 anos.
  • Ampla representatividade geográfica.
  • Medidas objetivas de condicionamento físico validadas.
  • Alta taxa de adesão nas fases iniciais.

Conclusão Final

       O estudo CHALLENGE demonstra que programas estruturados de exercício físico devem ser considerados parte integrante da abordagem pós-tratamento de pacientes com câncer de cólon, com benefício clínico significativo em sobrevida e qualidade de vida.

Referencia:

  • Artigo publicado no NEJM em 01 de junho de 2025 em paralelo a sua apresentação na ASCO 2025. (DOI: 10.1056/NEJMoa2502760).

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