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Real Oncologia

Estudo Interlace: Mudanças na estratégia de tratamento de pacientes com tumores de colo uterino localmente avançado.

*Comentado por Dra. Carolina Ferraz

            Durante longos anos, o câncer de colo uterino localmente avançado teve como estratégia consolidada de tratamento, a terapia definitiva com quimiorraterapia. No entanto, as taxas de recidiva à distância e mortalidade pela doença seguem bastante elevadas e desanimadoras, o que leva a necessidade de estudos que garantam o surgimento de novas estratégias terapêuticas que possam melhorar os resultados dessas pacientes a longo prazo.

            Alguns estudos prévios, testando a estratégia de quimioterapia de indução seguida de quimiorradioterapia haviam falhado em demonstrar benefício neste cenário de tratamento. Entretanto, após dez anos de recrutamento, o estudo INTERLACE, bastante esperado pela comunidade oncológica, veio para modificar a prática oncológica do tratamento do câncer de colo uterino localmente avançado.

            O estudo CGIG INTERLACE foi apresentado na sessão presidencial do congresso europeu de Oncologia – ESMO 2023. Foram recrutadas 500 pacientes, entre novembro de 2012 e novembro de 2022 com diagnóstico de câncer de colo uterino, estágio IB1 com linfonodos positivos, IB2 a IVA, subtipo escamoso ou adenocarcinoma, para quimioterapia de indução com carboplatina AUC 02 + paclitaxel 80 mg/m² seguido de radioquioterapia e braquiterapia ou o mesmo tratamento sem quimioterapia de indução. Os endpoints primários do estudo foram sobrevida livre de progressão e sobrevida global.

            A distribuição dos estágios foi Ib1/2 09%, II 77%, IIIB 11% e IVA 3%. 57% eram linfonodo negativo e 82% subtipo escamoso. As características entre os grupos dos estudos foram bem equilibradas. 92% dos pacientes do grupo de quimioterapia de indução receberam 5/6 ciclos de carboplatina/paclitaxel. O intervalo mediano entre quimioterapia de indução e quimiorradioterapia foi de sete dias. 84% no grupo de quimioterapia de indução versus 89% no grupo quimiorradioterapia isolada receberam 4/5 ciclos de quimioterapia. No braço quimiorradioterapia 92% e 89% completaram radioterapia externa e braquiterapia, respectivamente. Enquanto no braço da quimioterapia de indução, 97% e 95% realizaram radioterapia e braquiterapia.

            O estudo atingiu os objetivos primário de ganho de sobrevida global e livre de progressão em favor da terapia de indução, quando comparados os grupos, os dados de sobrevida global em 05 anos foram de 80% e 72% (HR: 0,61) e  sobrevida livre de progressão em 05 anos de 73% versus 64% (HR: 0,65). Avaliação de efeitos adversos não mostrou toxicidades tão diferentes entre os braços, eventos adversos de grau ≥3 de 59% versus 48%, o que torna o estudo factível e aplicável para a prática médica.

            Esses dados divulgados são de fundamental importância na estratégia de melhora de sobrevida das pacientes com câncer de colo uterino, em especial para as pacientes de países subdesenvolvidos como o Brasil, acompanhadas nos serviços públicos de saúde, com dificuldade de acesso a tecnologias de alto custo, realidade esmagadora da maioria das pacientes diagnosticadas com câncer de colo uterino.  É desanimadora a dificuldade de acesso as máquinas de radioterapia e filas de espera para início desse tratamento, o que resulta em desfechos ainda mais negativos para estas pacientes. Como uma quimioterapia que já é utilizada e acessível na maioria dos hospitais públicos brasileiros, o estudo INTERLACE tem potencial de modificar a prática clínica do sistema único de saúde e passa a ser o novo padrão de tratamento oncológico para estas pacientes.

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