*Comentado por Dra. Cecília Arraes
Próstata também foi plenária. Apresentado o PSMAfore, estudo de fase III, randomizado, em pacientes com câncer de próstata avançado resistente à castração não expostos à taxano para uso de Lutércio177 PSMA, uma partícula beta radionuclídeo, capaz de provocar morte celular por dano DNA. Essa molécula já mostrou seu benefício em linhas mais avançadas de tratamento, em pacientes previamente expostos a antiandrogênicos e quimioterapia a base de taxano.
O PSMAfore foi um estudo multicêntrico que selecionou pacientes com uma ou mais lesões captantes no PET/PSMA, com doença resistente a castração, que progrediram a um antiandrogenico periférico, que não foram expostos a taxano (exceto na adjuvancia ou neoadjuvancia > 12m), que não tinham indicação de uso de iPARP, para receber 6 aplicações de Lutécio a cada 6 semanas versus outro antiandrogênico periférico (abiraterona ou enzalutamida). O desfecho primário do estudo foi sobrevida livre de progressão radiológica. Estudo permitiu cross-over.
O estudo recrutou 547 pacientes, dos quais 505 tiveram resultado positivo no PET/ PSMA. Do total, 234 em cada braço, 97% dos pacientes no grupo Lu-PSMA receberam o tratamento versus 99% no grupo padrão. No momento da segunda análise interina, que englobou dados de sobrevida global, 21% dos pacientes haviam progredido no braço experimental versus 62,4% no braço padrão. Destes, 82,4% receberam Lu-PSMA pós cross-over.
As características dos pacientes foram semelhantes entre os grupos e o perfil de pacientes neste trabalho revela uma idade mediana de 70 anos, quase 60% gleason 8-10 no braço do Lutécio versus 45% no braço antoandrogênico, mediana de PSA em torno de 18, maior sítio de metástases foram os linfonodos em ambos os grupos e o antiandrogênico mais usado previamente foi a abiraterona com 50% dos casos, seguida de enzalutamida em 40% em ambos os grupos.
Nesta apresentação foram expostos os resultados de sobrevida livre de progressão radiológica (SLPr) na primeira análise interina e a atualização desse desfecho. Com impressionantes 12 meses de SLPr versus 5,59m, o Lutercio177 mostra sua ação e seu benefício neste cenário, alcançado HR de 0,41. Os dados atualizados, HR foi de 0,43.
Na análise de subgrupo, toda a coorte derivou benefício, exceto os pacientes previamente expostos a radioterapia, provavelmente por estarem menos representados na coorte. A taxa de resposta também foi impressionante, atingindo 50,1% versus 16%, com 21% de taxa de resposta versus 3,7%. A duração de resposta mediana foi de 13 versus 10 meses. Pacientes progrediram em apenas 15,5% versus 32,3%. Em relação à queda de mais de 50% do valor do PSA, tivemos 57,6% versus 20,4%.
Outro desfecho que chama atenção é o percentual de eventos esqueléticos – 10,7% versus 25,2 HR: 0,35 e com mediana não atingida para tempo de evento ósseos em ambos os braços.
O estudo ainda foi positivo para tempo de deterioração de qualidade de vida que foi a favor do Lu-PSMA com HR 0,59 e de piora da dor HR 0,69.
A sobrevida global não foi diferente ambos os grupos – 19 meses- porém com a ressalva de que 82% dos pacientes do braço padrão sofreram cross-over para o braço experimental.
Em relação a perfil de eventos adversos e segurança, o grupo do Lu177 apresentou menos eventos grau 3 ou 4 – 33,9% versus 43,1%, graves em 20,3% versus 28%; com necessidade de ajuste de dose em apenas 3,5% versus 15% e descontinuação da droga em 5,7% versus 5,2%.
Os principais eventos adversos foram: boca seca, astenia, anemia, náuseas, fadiga, constipação, maioria dos quais, G1 ou 2.
Assim, o PSMAfore atingiu seu objetivo primário de sobrevida livre de progressão radiológica, com excelente perfil de toxicidade em pacientes resistentes à castração não expostos a taxano. Os desfechos secundários e análise exploratória também foram favoráveis, com tendência de benefício em sobrevida global apesar de 82% de cross-over.
O grande desafio no cenário resistente a castração continua. O PSMAfore não respondeu à pergunta de qual a posição do Lu177 no cenário resistente à castração. Esse trabalho posiciona a terapia com lutécio num cenário de pacientes não aptos a receber taxano, mas os questionamentos permanecem. É mais uma opção terapêutica.
Referências:
1)https://www.esmo.org/meeting-calendar/esmo-congress-2023
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