Comentado por Dra. Samara Aquino*
Apresentando na ASCO Genitourinary Cancers Symposium deste ano o TRITON é um estudo fase III, aberto, randomizado, que analisou o uso de rucaparibe em pacientes com câncer de próstata metastático resistente a castração (CPMRC) com mutação em BRCA ou ATM. Os pacientes poderiam ter recebido tratamento com um inibidor do receptor de androgênio de segunda geração no cenário sensível ou resistente a castração, como também era permitido uso de taxano apenas no cenário sensível a castração.
Os pacientes foram randomizados em uma razão de 2:1 para receber tratamento com rucaparibe, 600mg via oral duas vezes por dia, ou tratamento a escolha do investigador com docetaxel, abiraterona ou enzalutamida. O desfecho primário consistia de sobrevida livre de progressão radiológica (SLPr) e os principais desfechos secundários foram sobrevida global (SG) e resposta objetiva. O desfecho primário foi analisado primeiro no subgrupo BRCA e então na população intention-to-treat (ITT), se fosse encontrada significância estatística no primeiro.
Foram randomizados 405 pacientes com alteração em BRCA ou ATM, dentre estes 64% tinham mutação de BRCA 2 e 26% de ATM, 27% no grupo experimental e 34% no grupo controle tinham metástase visceral, 18% não haviam recebido tratamento prévio para doença resistente a castração e docetaxel foi o tratamento de escolha do investigador em 56% dos casos.
Quanto aos resultados, rucaparibe foi associado com aumento significativo de SLPr no braço BRCA e na população ITT. No grupo BRCA a mediana de SLPr foi de 11,2 versus 6,4 meses (HR, 0.50; IC 95%, 0.36 a 0.69; P <0.001). Na população ITT a mediana de SLPr foi de 10,2 versus 6,4 meses (HR, 0.61; IC 95%, 0.47 a 0.80; P <0.001). Quando analisado o subgrupo com mutação de ATM, não houve diferença estatísticas significativa de SLPr entre os braços (8,1 meses versus 6,8 meses – HR 0.95; IC 95%, 0.59 a 1.52). Com cerca de 55% de maturidade e 45% de crossover, ainda não há benefício de SG em nenhum dos grupos. Em análise exploratória a SLPr foi maior no braço experimental quando comparado com tratamento com docetaxel (11,2 versus 8,3 meses, HR 0.53; IC 95%, 0.37 a 0.77) ou inibidor androgênico (11,2 vs. 4,5 meses; HR, 0.38; IC 95%, 0.25 a 0.58).
Os eventos adversos mais comuns no braço rucaparibe foram fadiga, náusea e anemia, sendo anemia também um dos eventos adversos mais comum de grau 3 ou maior. Eventos adversos que levaram a descontinuação do tratamento ocorreram em 15% no braço experimental e 22% no braço placebo.
Outro importante estudo avalando iPARP em paciente com mutação em genes relacionados a via de recombinação homóloga, o PROFOUND, foi criticado devido seu braço controle (enzalutamida ou abiraterona após progressão a uma ou outra droga), os autores consideram como ponto forte desse estudo o fato de que no braço controle 56% dos pacientes receberam tratamento com docetaxel. Acredito que este é um trabalho que veio para estabelecer o benefício do uso de iPARP isolado em pacientes com CPMRC e mutação em BRCA, porém seguimos sem evidência de benefício deste tratamento nos pacientes com mutação em ATM.
Wassim Abida, Akash Patnaik, David Campbell, et al. Rucaparib in Men With Metastatic Castration-Resistant Prostate Cancer Harboring a BRCA1 or BRCA2 Gene Alteration. J Clin Oncol. 2020 Nov 10;38(32):3763-3772.
*Nossos médicos desenvolvem comentários sobre artigos relacionados à oncologia.