Comentado por Dra. Carolina Zitzlaff*
A associação entre Cancer e hábitos alimentares vem sendo cada vez mais discutida e estima-se que até 50% dos casos de câncer poderiam ser potencialmente evitáveis. Os alimentos ultraprocessados, ou seja, formulações industriais ricas em aditivos e pobres em alimentos na forma integral costumam ter alto teor calórico e serem ricos em sal, açúcar e gordura, cada vez mais presentes na dieta. São exemplos: macarrão instantâneo, salsicha, frituras congeladas, biscoitos recheados). Nos EUA e Reino Unido, excedem 50% de toda a ingesta calórica da população. Além da associação com Diabetes tipo 2 e obesidade, parecia haver associação com risco de câncer.
Com objetivo de melhor elucidar essa associação, foi desenvolvido um estudo, recém publicado na revista Lancet, que avaliou a associação de ultraprocessados e risco de 34 tipos de câncer.
Este estudo incluiu uma coorte prospectiva de participantes do Biobank do Reino Unido (40 a 69 anos) que completaram recordatórios alimentares de 24 horas entre 2009 e 2012 (N = 197426, 54,6% mulheres) e foram acompanhados até 31 de janeiro de 2021. Alimentos consumidos foram categorizados de acordo com seu grau de processamento de alimentos usando o sistema de classificação de alimentos NOVA. O consumo de Alimentos ultraprocessados dos indivíduos foi expresso como uma porcentagem da ingestão total de alimentos (g/dia). As associações prospectivas foram avaliadas usando modelos multivariados de riscos proporcionais de Cox ajustados para características sociodemográficas basais, tabagismo, atividade física, índice de massa corporal, consumo de álcool, energia total e status de menopausa nas mulheres, além de comorbidades como diabetes, hipertensão, depressão e doença cardiovascular.
Os participantes contribuíam com dados até a ocasião de diagnóstico de câncer, mortalidade por câncer, mortalidade por outras causas, perda de follow up ou até o término do estudo.
Foram construídos quatro modelos de análise em etapas incrementais: o Modelo 1 incluiu idade (escala de tempo) e consumo de Alimentos ultraprocessados, estratificado por sexo; O modelo 2 adicional incluiu etnia, tabagismo, atividade física, renda familiar média, nível educacional mais alto, consumo de álcool e adicionalmente estratificado por altura, histórico familiar de câncer, IMC e região geográfica; O modelo 3 incluiu adicionalmente a categoria de IMC; O modelo 4 (modelo final) incluiu adicionalmente a ingestão diária de energia. Para os desfechos de câncer de mama, útero e ovário, foram incluídos, adicionalmente, no Modelo 2: status basal de menopausa, uso de contraceptivos orais, uso de terapia de reposição hormonal e paridade.
Desfechos em cancer de pulmão eram adicionamente estratificados conforme tabagismo e tumores de cabeça e pescoço estratificados de acordo com tabagismo e etilismo. Cancer Colorretal era ajustado ainda pra o consumo de carne vermelha, carne processada, fibras e ingesta de cálcio.
A idade média dos participantes do estudo foi de 58 anos e 54,6% (107,919/197,426)eram do sexo feminino. O consumo médio de ultraprocessados foi de 22,9% de toda a ingesta diária, variando de 9,2 a 41,4%. Esses participantes com maior consumo tendiam a ser mais jovens e ter menos história familiar de câncer. A proporção de obesidade, sedentarismo e baixo nível socioeconômico foi maior em pacientes com maior ingesta.
Um total de 15,921 casos de câncer foram diagnosticados durante 1,890,187 pessoas-ano, num follow up médio de 9,8 anos. Foi encontrada associação com câncer em geral (HR, 1.02; 95% CI, 1.01–1.04) e de câncer de ovário em mulheres (HR, 1.19; 1.08–1.30). Além disso, cada aumento de 10 pontos percentuais no consumo de AUP foi associado a um risco aumentado de mortalidade geral relacionada ao câncer (1,06; 1,03–1,09), ovário (1,30; 1,13–1,50) e mama (1,16; 1,02–1,32).
Com relação a contribuição dos alimentos ultraprocessados na ingesta calórica diária, foi obtida uma média de 48.6%. Os dados do estudo sugeriram também associação positiva entre a proporção de calorias diárias decorrentes do consumo de AUP e a incidência de câncer em geral, neoplasias hematológicas e câncer de ovário.
Em resumo, apesar de não podermos implicar relação de causalidade, dado que é um estudo observacional, essa coorte prospectiva avaliou uma grande população e forneceu dados mais consistentes sobre a associação de alimentos ultraprocessados e o risco de diversos tipos de câncer. Chama atenção o impacto dessa associação em Cancer de ovário, até então pouco estudada. Um dado importante é que esta coorte contou com menos pacientes tabagistas em relação a outros estudos anteriores, o que pode ter contribuído para os diferentes achados.
As recomendações para prevenção de câncer devem, portanto, enfatizar a importância de uma dieta balanceada rica em alimentos não industrializados.
*Nossos médicos desenvolvem comentários sobre artigos relacionados à oncologia.