Comentado por Dra. Emmanuely Duarte
No dia 04 de fevereiro é comemorado o Dia Mundial de combate ao câncer ( ou Dia Mundial do câncer) e foi publicado na Revista The Lancet um editorial sobre o panorama mundial da Oncologia, com os seus desafios e as grandes disparidades econômicas que acompanham essa especialidade.
É de conhecimento geral que as desigualdades mundiais no tratamento e controle do câncer estão profundamente enraizadas e a realidade é assustadora.
A taxa de sobrevida em relação ao câncer infantil, por exemplo, corresponde a mais de 80% em países de alta renda, comparado a 20% em países de baixa renda. Essas disparidades surgem de enormes diferenças na prevenção e no tratamento do câncer – exposição a fatores de risco, disponibilidade de programas de saúde pública e acesso a diagnósticos e tratamentos precoces– agravados pela crescente incidência do câncer. Há ainda a necessidade de serviços oncológicos de alta qualidade como radioterapia, cirurgias complexas e novos tratamentos, os quais exigem grande infraestrutura, força de trabalho, educação e treinamento, a custos potencialmente vertiginosos. Fornecer esses serviços em países menos desenvolvidos é um desafio sem precedentes, mas existem alguns passos que podem ser dados.
Inicialmente, é necessária uma mudança de mentalidade na saúde global. Existem iniciativas internacionais para controle e eliminação de vários tipos de câncer. A redução da mortalidade prematura por doenças não transmissíveis, incluindo o câncer, está consagrada nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. No entanto, essas doenças têm sido negligenciadas pela comunidade global de saúde. As doenças infecciosas e a saúde infantil ainda dominam empresas importantes, como a Fundação Gates e o Fundo Global, mesmo quando o câncer se torna uma das principais causas de morte. Em 2021, a Assistência ao Desenvolvimento para a Saúde faturou US$ 9 bilhões para HIV/AIDS, em comparação com pouco mais de US$ 1 bilhão para as doenças não transmissíveis. É provável que haja muitas razões para essa omissão, desde a diversidade de neoplasias até ideias herdadas sobre o que é a saúde global, mas a noção de que o custo e a complexidade do tratamento do câncer é um problema intratável para a saúde global também tem desempenhado um papel nisso. Os desafios da oncologia global exigem maior atenção e investimento, e não menos.
Os esforços internacionais são importantes, mas programas de câncer eficazes e sustentáveis só virão por meio de ações nacionais. 40% dos cânceres são evitáveis e um terço pode ser curado por meio de detecção e tratamento precoces. São fundamentais tributação e regulamentação robustas para lidar com os determinantes comerciais da saúde que impulsionam a carga do câncer principalmente relacionados ao tabaco, álcool e comidas processadas. A promoção da saúde e a educação podem prevenir doenças e aumentar a conscientização para ajudar a detectar doenças precocemente. Abordagens holísticas lideradas pela comunidade são muito melhores do que iniciativas privadas internacionais.
Existem vitórias fáceis e claras que podem fazer uma enorme diferença nos resultados do câncer. A vacinação contra o HPV pode prevenir a grande maioria dos cânceres de colo uterino, dentre outros tipos, como os de cabeça e pescoço, de pênis e de canal anal. O programa nacional de vacinação contra o HPV de Ruanda, introduzido pela primeira vez em 2011, por exemplo, agora tem uma cobertura de mais de 90%.
Seguindo uma resolução da Assembléia Mundial da Saúde de 2005, cada país foi encorajado a preparar um plano nacional para o controle do câncer. É correto que as estratégias de saúde se concentrem nas prioridades específicas de cada país, refletindo a carga local de doenças para direcionar recursos e promover os cuidados onde eles são mais necessários. A iniciativa nacional é a melhor maneira de garantir o sucesso. Apesar de mais de 150 países já disponibilizarem esses planos, uma análise de 2018 mostra que a qualidade varia muito. 10% não tinham estratégias de controle do tabagismo, 40% não tinham estratégias para conter o consumo de álcool e 33% não mencionaram a vacinação contra o HPV. Há uma necessidade primordial de governança e de garantir uma prestação de contas quanto a implementação dessas medidas.
O impacto do câncer nas sociedades é inevitável e vem se tornando um desafio de saúde pública cada vez mais dominante, essencialmente nos países de baixa e média renda. Essa urgência só irá acelerar. O primeiro passo deve, portanto, ser um compromisso político com a cobertura universal de saúde. Mas o segundo deve ser projetar serviços de prevenção e de tratamento especializados para o câncer. Essas ações são imperativas e a resposta a esse problema crescente implicará no legado e na reputação de diversos políticos.
*Nossos médicos desenvolvem comentários sobre artigos relacionados à oncologia.